Sinais da chuva

Todo tempo tem seus sinais e todos os sinais têm seu tempo. O clássico Xote das meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, inicia com a floração do mandacaru sinalizando o início da chuva, levando fertilidade ao solo e fartura pro sertanejo: “Mandacaru quando fulora na seca/É um sinal que a chuva chega no sertão.” Depois os versos comparam, com poesia e graça, a floração do mandacaru com o abandono da boneca pelas meninas, com a fertilidade vital trazendo as dores e as alegrias da idade: “Toda menina que enjoa da boneca/É sinal de que o amor já chegou no coração”. 

Os sinais são elementos imprescindíveis à cultura sertaneja. Toda pessoa curtida no campo tem o seu arsenal de sinais para dar orientação e sentido às suas ações. Para quem vive da economia de subsistência, plantar e colher estão na base de tudo, de onde provêm todos os impulsos para organizar a agenda, o calendário, a vida. Para o homem urbano, já desvinculado da própria sombra, da bulha do fôlego e outras sutilezas, esses sinais se parecem a superstições ou mesmo bobagens de quem não perdeu os cacoetes da ignorância nos bancos escolares.

Um sertanejo pode prever, com grande chance de acertos, se em determinado ano haverá tempestades, que intensidade terão e até saber a direção dos ventos. Se ele notar que o joão-de-barro está reduzindo a porta de entrada de seu lar é sinal de que aquele ano terá maior incidência de chuvas bravas de média intensidade. Se ele abandona o velho lar, e constrói um novo, é sinal de que as tempestades virão com alta intensidade. Já se ele troca apenas as palhas do ninho é sinal de que terá um ano de chuva mansa. Ah, e o fundo da casa do joão-de-barro está sempre voltado contra o vento. A ventania na direção da entrada pode ser fatal para os filhotes. 

Já o sabiá é um sensor de aproximação das chuvas. Seu canto pode indicar chuva em até cinco dias e o roceiro se mobiliza para o plantio, aproveitando bem a janela da chuva. Que é pra ter tempo de plantar o milho e na mesma terra o feijão e culturas de complemento como a melancia, a abóbora, o quiabo e o mangarito. Mas não é qualquer cantiga de sabiá que indica chuva, não. Tem a música certa pra isso. É mais tristonha, pautada em si bemol menor, geralmente entoada no final do entardecer. A diferença de outros cantos que nada têm a ver com chuva é muito sutil. É só para quem tem tino, ouvido afinado e vivência. No final da seca, se os cupins aumentam seus cupinzeiros para cima, é sinal de chuva farta. Se os acréscimos são nas laterais é sinal de pouca chuva. Outras dicas de meteorologia podem vir do voo dos pássaros, dos enxames de abelhas, do modo como os peixes batem na água do rio e até pelo calo que dói. Mais pro final das águas, se as formigas correição andam em fileiras pelos campos sinalizam que a chuva vai parar mais cedo. Mas quando as acauãs entoam em dupla, nada tem a ver com chuva. É na certa algum parente que morreu. 

Como citadino egresso do campo, já descobri alguns sinais urbanos da chuva: Se minha TV a satélite está com a imagem boa, não chove hoje. Se chuviscada, chuva no período. Agora, se a imagem cai, pode recolher as roupas do varal, que a chuva chega dentro de meia hora.

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em março de 2014).

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