A ideia de ser bacana me seduzia

Por alguns períodos trabalhei como diarista para o empreiteiro Fernandes, durante o tempo em que eu fazia o ginásio.  Só por uns períodos, porque ele não trabalhava na região o ano todo. Ia sempre para onde lhe ofereciam boas empreitadas. Em nossa região pegava mais era roça de arroz pra capinar. Certa vez pegou para arrancar tocos e árvores de um cerrado e levou manta. Nunca mais caiu nessa. 

Quando o serviço escasseava por perto, ia lá pras bandas do Bugre, do Córrego Seco e da Jacuba. Até na região dos Delfinos ele já andou trabalhando. A jogada dele era pegar bem a empreita e contratar braçais para ajudá-lo. Aí é que eu me incluía. Eu gostava de trabalhar com o Fernandes. Havia outros empreiteiros, mas exigiam total concentração no golpe da ferramenta. Certa vez trabalhei com o Teodoro. Era gente boa também, mas caladinho e a gente não podia falar nem rir de nada. Se a gente risse de qualquer coisa, logo dizia, “muito riso, pouco siso”. Já o Fernandes era bem liberal. Ele mesmo, um grande contador de casos e anedotas. A gente podia rir à vontade. 

Acho que a maior satisfação do Fernandes era contar as lendas dele mesmo pra gente achar graça. Mas tinha a manha para, mesmo rindo, o serviço não perder o embalo. Separava um eito de roça, com duas becas de arroz para cada enxadeiro e chamava a moçada no desafio: “quem ficar pra trás é mulher do padre”. E imprimia uma coreografia alegre, num ritmo que todo mundo acompanhava e o serviço rendia pra caramba.  E o melhor de tudo é que depois do meio dia ele separava um talhão e me dava como tarefa. Ao terminar estaria liberado para cuidar das minhas coisas da escola. Eu carpia sem parar e ali pelas quatro horas já estava indo pra casa.

Fernandes me dizia que o ressentimento dele era não ter estudado mais. O seu irmão Andrade, que tinha estudado até o ginasial, mudara para Goiânia há alguns anos, tinha um emprego bom e levava vida de bacana. Era amigo até do famoso Moraes César, do programa de rádio.  Alugava um quarto só pra ele, comia de marmita, tinha direito a férias, vestia roupa de carregação e era dono de uma lambreta.  E me animava que se eu estudasse, ainda ia ser um bacana como o irmão dele, o Andrade. 

Certa vez, num domingo, o Fernandes chegou lá em casa com o Andrade. Um tipo moreno, maior que o Fernandes, que já era grande. Do modo que minha tia olhava pra ele, devia ser bonito. Vestia roupa da moda, uma camisa volta-ao-mundo, transparente, apertada e bem curtinha, que depois que foi embora minha mãe falou que era uniforme de tomar purgante. Não acreditei e desejei ter uma. Meio sem jeito eu lhe falei que o Fernandes comentava que ele era estudado e tinha um bom emprego. Vaidoso, sorriu consentindo. Eu quis saber qual era profissão. Ensimesmado, me disse: “gari”.  Não tive coragem de perguntar o que fazia um gari. Mas achei que era granfa e isso me marcou. Anos mais tarde, cheguei a Goiânia. Por indução ou coincidência, meu primeiro emprego foi gari, ou melhor, de faxineiro numa escola. Isso depois de ser reprovado como pacoteiro na loja A Revolução Tecidos.   

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em abril de 2014).



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