Guerra civil à brasileira

Com frequência ouvimos que determinado gestor público fez algum negócio, não para atender aos interesses da coletividade,  que representa, mas para atender  aos próprios interesses. Este deveria ser o crime máximo da política. O gestor que o praticasse deveria receber pena capital: ser banido do exercício da função público.

Infelizmente não é assim.  No mais das vezes quem comete um pequeno crime fica credenciado para um crime de média monta. O que pratica um médio conquista know-how para um crime de enormes dimensões. A sociedade é um pouco, por que não dizer, bastante condescendente com os larápios da coisa pública, como se o que é público não fosse de ninguém. Nenhum corrupto dos nossos veio do Beleléu ou de Marte. São terráqueos e nacionais, vindos de alguma extração social autóctone.

 Até há um pensamento de que a corrupção não é tão prejudicial. Afinal, o dinheiro não some. Apenas muda de lugar. O roubo da merenda escolar vai para a pecuária ou para o supérfluo. Continua na economia a produzir riquezas. Não há pensamento mais tacanho. Dinheiro fora do lugar gera aleijões insanáveis. No caso, a criança sem merenda cresce com déficit protéico, deficiência que se converte em evasão escolar, analfabetismo, subemprego, sociedade capenga. O dinheiro que vai para o supérfluo no mínimo gera desequilíbrio na balança comercial. Os supérfluos são de um modo geral importados.  Ao longo do tempo isso provoca um estrago medonho.

A política luso-brasileira tem tradição no ramo. O rei de Portugal, D. Pedro II (não é o nosso Pedro II. O nosso II foi o D. Pedro IV de Portugal) assinou o Tratado de Methuen com a Inglaterra, em 1703, com validade perpétua. O rei português não queria assinar. Entendia que era perverso ao reino. O tratado era até bem singelo. Portugal (e suas colônias) só poderia consumir tecidos da Inglaterra e a Inglaterra se comprometia a adquirir todo o excedente de vinho português. Sem barreiras fiscais. D. Pedro achava que a exportação de vinho seria infinitamente menor do que a importação de tecidos, o que ao longo do tempo geraria déficit na balança comercial lusitana. Sem contar que Portugal já pagava os tufos para os ingleses fazerem sua escolta nos mares. Mas dois dos conselheiros mais influentes, o duque de Cadaval e o marquês de  Alegrete (ministros da Justiça e das Finanças, respectivamente), bateram o pé que o tratado precisava ser assinado, que seria a redenção de Portugal e coisa. No entanto, os dois ministros eram grandes viticultores e o tratado apenas atendia à ânsia de expansão dos próprios negócios.

Ao longo dos anos o negócio se mostrou mesmo ruinoso. Matou no nascedouro a indústria têxtil portuguesa, gerou um desequilíbrio monumental nas contas externas e, ao florescer o ciclo do ouro no Brasil, a produção foi quase toda pra Inglaterra a fim saldar as dívidas do infeliz tratado. Por essas e outras, depois dos feitos das grandes navegações e das descobertas territoriais que marcaram o fim do feudalismo e o início da era moderna, Portugal nunca mais se viu em posição de apogeu.

Mas com o ouro do Brasil a Inglaterra sustentou o período heróico da primeira onda da revolução industrial.  Convido o leitor a buscar na memória quantos tratados de Methuen já viu nossos gestores assinaram. Só mesmo um país “abençoado por Deus” poderia resistir a essa guerra civil dos poderosos contra o próprio país. 

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás - em maio de 2014).

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