Edival Lourenço

Lançamento do livro "Naqueles morros depois da chuva"

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Programa Raízes Jornalismo Cultural

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Reze a Alá, mas amarre o seu camelo


Imagem do google

O Brasil é um país complexo que consegue a um só tempo ser sofisticado e ingênuo. O poder organizado, os ordenamentos político, jurídico e econômico são sofisticados em oposição a uma sociedade simplória. O estado é dominador, perverso, um Leviatã (monstro), no dizer de Hobbes. É uma classe dominante, no sentido mais cruel do termo e o povão dominado, dons Quixotes que às vezes nem cogitam de combater os moinhos de veto. É um sentimento que nos assola.
                         
Somos terreno fértil para a propagação de disparates. Não só de dominadores contra dominados, mas até mesmo de pessoas ou grupos contra outros no mesmo estamento social. Lugar propício para idéias únicas, dogmáticas, tabus e falta de discussão mais profunda de questões que nos afligem. Há patrulhas, inocentes ou esclarecidas, a cuidar para que certos aspectos da sociedade se conduzam de modo a atender interesses escusos, cumprir agendas secretas, contra o povo.

É tanta iniqüidade que não custa desconfiar de ações impetradas, quer de governo, quer de particulares. Qualquer uma. Já vimos imposição de kits de primeiros socorros para motoristas, sem que possam ou saibam usá-los. Parlamentares que se sujeitam a ser office-boys de contraventores, padre que mata o colega com hóstia de Furadan por ciúme de noviço, pastor que rouba e até estupra fiéis, traficante de drogas dono de clínicas de recuperação de drogados, ongueiros defendendo a permanência das cracolândias porque recebem verbas públicas pelo número de “protegidos”. São tantas mazelas que dariam para entupir os arquivos do Google.

Ante as pinceladas acima, toco num vespeiro alvoroçado, que é a campanha em marcha de erradicação do trabalho infantil e adolescente e restrições para a última fase da adolescência. E antes que as vespas saiam para o ataque, pede-se que contem até três, que reflitam um pouco sobre a questão. 

Os pais e mães de família vivem uma situação de penúria e impasse. Sobretudo  os de menor poder aquisitivo. Os pais precisam trabalhar e não há escolas de tempo integral que possam ocupar os filhos. As existentes estão assediadas pelos meliantes e se tornam mais centro de aliciamento para o crime do que mesmo local de aprendizagem e educação. Com a publicidade impondo o consumo goela abaixo, crianças e adolescentes massacram os pais pelo tênis da moda, pelo celular de última geração, pela roupa de grife, pela grana da balada. Jovem, sobretudo se não trabalha, não tem (e não quer ter) noção do preço das coisas, mas entende que seu uso é inadiável. 

Os jovens desocupados, sem vigilância e ansiosos por consumo, são presas fáceis do crime. A cada dia aumenta mais as notícias de gangues de menores, inimputáveis, (logicamente comandas por gangues de maiores) barbarizando a sociedade com crimes diabólicos. E as autoridades cada vez mais impotentes e perdidas em suas funções. Não seria mais razoável uma campanha por trabalho seguro e decente para os jovens?  Os tempos não outros, mas pessoas de gerações anteriores que começaram a trabalhar mais cedo não são traumatizadas por isso.

Não será surpresa nenhuma se um dia desses o Ministério Público ou a Polícia Federal descobrir que a campanha de erradicação do trabalho infantil e adolescente é financiada por uma rede de traficantes e malfeitores. Afinal, o segmento jovem é o maior cliente do crime. Seja como usuário, seja como mão de obra.   

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em 14 de maio de 2013)

Literatura cotada na Bolsa


Ser cotada na bolsa é motivo de orgulho para qualquer empresa. Significa que a corporação ganhou porte e passaporte para jogar com os grandes. É um momento estressante também, pois a maior ou menor crença dos investidores determina o sucesso ou o fracasso daí em diante. Em casos recentes, o Facebook se lançou na bolsa, galeou para um lado e pra outro, para em seguida pegar ritmo de navegação. O Grupo X de Eike Batista se jogou também. Repentinamente fez do empreendedor um dos maiores magnatas da terra, que festejou feito doido. Mas sem mais nem menos começa a fazer água. Para não afundar, o milionário, já desidratado, grita por socorro a duas pessoas: a Deus e o mundo.

 Muita gente não sabe, mas a Literatura de Goiás também é cotada na Bolsa.  Aliás, nossa Literatura é bastante rica (culturalmente, claro). Hugo de Carvalho Ramos, por exemplo, foi o precursor do regionalismo moderno e a maior influência de Guimarães Rosa. Além de outros nomes fundamentais da literatura nacional tais como Cora Coralina, José J. Veiga, Carmo Bernardes, Eli Brasiliense, Rosarita Fleury.  É claro que a cotação não é na BM&FBOVESPA, a bolsa de valores oficial do Brasil. Mas na BPHCR (Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos). 

Brincadeira à parte, a Bolsa Hugo foi criada em 1944, pelo primeiro prefeito de Goiânia, prof. Venerando de Freitas Borges. A proposta era descobrir obras inéditas de autores goianos nos gêneros ficção e poesia. Por força de lei, sua administração sob responsabilidade da UBE – GO – União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás.

Já na primeira edição, a Bolsa descobriria não apenas obras inéditas, mas também um autor que marcaria nossas letras positivamente e para sempre. O ganhador de ficção foi Bernardo Élis, com  Ermos e Gerais. Depois foi vencedor do Prêmio Jabuti de romance e ocupou a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras.

 A Bolsa Hugo se firmou ao longo dos anos. E assim como a bolsa de valores é para as empresas, a Bolsa Hugo passou a ser um divisor de águas para a vida dos escritores de Goiás.Tornou-se uma espécie de limiar no rito de passagem na vida de nossos autores: antes e depois da Bolsa. Ganhar a bolsa, que é sempre muito concorrida, é como receber um selo de qualidade, de maturidade literária. O estresse vem do fato de ter que continuar escrevendo com qualidade. 

Durante quase setenta anos, a Bolsa Hugo chancelou obras dos autores mais importantes de nosso estado. Tais como (citando só alguns que já partiram para outra dimensão): Americano do Brasil, Eli Brasiliense, José Godoy Garcia, Anatole Ramos, Yêda Schmaltz, Pio Vargas, Luís Palacín, Lacordaire Vieira.

Quando  o jornalista Jaime Câmara foi presidente da UBE, o resultado da Bolsa era divulgado ao vivo pela TV Anhanguera. Em recente visita que o escritor Valdivino Braz (secretário da UBE) e eu fizemos à Secretária de Cultura, profa. Glacy Antunes, acertamos que este ano o resultado voltará a ser vistoso, divulgado como parte dos festejos de 80 anos de Goiânia. Também, como parte da festa, serão lançados os livros dos ganhadores do ano passado: Cristiano Deveras e Sinésio  de Oliveira.   

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em maio de 2013)




Ruína em construção

Uma das idéias mais dolorosas e nostálgicas que podemos ter é pensar que o ser humano, como espécie, possa vir a desaparecer da face da Terra. E, com o desaparecimento, perder toda a nossa cultura, toda a nossa história, toda a nossa teologia, toda a utopia que sobre nós mesmo construímos.

Estarão perdidos para sempre as promessas de Cristo, as obras de Shakespeare, as pinturas renascentistas, os poemas de Pessoa, os últimos avanços da informática. Tanto mais dolorosa esta idéia, quanto mais pensarmos que a trágica situação pode estar bem ali, no horizonte próximo da condição humana.

Não porque um avatar, após levitar sete dias e sete noites sobre ondas de fogo-fátuo dos dejetos do mundo, tenha previsto que o fim esteja próximo. Não porque um profeta descalço e barbudo, após passar quarenta dias e quarenta noites no deserto, bebendo água do sereno e se alimentando de gafanhotos desentranhados da areia, tenha concluído que os cavaleiros do apocalipse já estão com o cenário montado, a mímica treinada à exaustão e o texto na ponta da língua. Não. Não é nada disso.

Os sinais do desastre planetário, sem mistificação nenhuma, estão por toda parte. Nós, humanos, somos uma praga na biosfera. Assim como um câncer no organismo, que tende a lançar metástases em todos os confins, abrindo novas sucursais de dor e bases de lançamento para mais ocupações. O câncer, em sua sanha colonizadora, acaba por aniquilar seu hospedeiro e morre juntamente com ele. O câncer não sobrevive à sua vítima. Na atual era geológica, nós somos o câncer do planeta.

Mais eficiente que nosso corpo, o planeta tem seus mecanismos de se defender das pragas que sobre ele vicejam.  Acredita-se que, 65 milhões de anos atrás, a Terra valeu-se de um meteoro para se livrar do câncer da vez: os dinossauros e mais alguns milhares de espécies inconvenientes.

Agora, que já aproximamos dos oito bilhões de indivíduos da espécie, atingindo dimensões de praga bíblica, a arma contra nós já está engatilhada. Trata-se do aumento da temperatura média dos oceanos e do ar ao redor do planeta onde se desenvolve a vida, conseqüência da atividade humana, especialmente pela queima de combustíveis fósseis. Mas que atende pelo singelo pseudônimo de Aquecimento Global.

Incrível como a natureza humana conspira a favor da tragédia. Assim como outras espécies, nós não temos controle sobre nosso destino. Nossas forças ética e moral  estão subordinada às leis de mercado. E o mercada não enxerga nada que não cheire a lucro. No mais quer mesmo é ver o oco.

Veja só que ironia. O sonho do mercado é aparelhar grandes contingentes de massas frugais como os povos da China, Índia, Paquistão, Congo etc. para se tornarem mercados consumidores no nível dos americanos. O mundo não tem potencial para gerar matéria prima para tanto consumo, por tempo considerável.

O mercado investe cada vez mais no luxo da embalagem, mesmo que seja para acondicionar soro, água oxigenada e soda cáustica, ao invés de leite. Embalagem esta que vai emporcalhar o meio ambiente, em volume superior à sua capacidade de absorção.

Mesmo diante do desastre à vista, o mercado insiste em fabricar carrões cada vez mais possantes para pessoas cada vez mais individualistas. E os governos, de olhos grandes nos impostos dos carros e dos combustíveis, menosprezam qualquer possibilidade de investimentos em transportes de massa, ou mesmo na adequação do transporte individual.

O Brasil, por exemplo, insiste em detonar seus biomas, que são mecanismos naturais de proteção contra o aquecimento global. Sonha transformá-los em desertos verdes, liquidando com as espécies de mútuo apoio, para a produção de biodiesel.  Visando com isso, única e exclusivamente, tirar proveito financeiro do desatino do transporte individual.

Ironia maior é a ferramenta de autodestruição que a própria Natureza está entregando nas mãos do homem. E o homem, cego de ambição, nem percebe o ardil. A queima do petróleo até agora, com a liberação de CO2 na atmosfera, provocou o degelo de vastas extensões nas calotas polares. A redução da manta de gelo no Ártico possibilitou o acesso a gigantescas jazidas de petróleo, até então guardadas em segredo.

Se a ciência estiver correta em seu diagnóstico, não precisaremos de mais nenhuma arma para o suicídio da espécie. Antes que acabemos de queimar o petróleo recém-descoberto, acelerando nossos carrões-vitrines-de-status, teremos torrado o planeta, como a cabeça de um palito de fósforo Fiat Lux.

E a Natureza, milhões de anos mais tarde, com a paciência que só ela tem, retomará o curso normal de semeaduras de vida. Obviamente livre para sempre de uma espécie daninha e arrogante que se autodenominou Homo Sapiens e se julgava senhora do próprio nariz.