Edival Lourenço

Lançamento do livro "Naqueles morros depois da chuva"

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Edival Lourenço

Programa Raízes Jornalismo Cultural

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A era dos pós

Não me refiro aos pós da queima dos combustíveis fósseis, da queima das matas, nem da poeira que sobe pela ação das máquinas na remoção de terra ao redor do mundo, ou aos cones de poeira sobre os chapadões arrasados, no mês de agosto. Não me refiro aos pós da queima dos canaviais, das matas virgens, dos cerrados de reserva (das poucas que ainda há), ou das pirambeiras de luxo de Los Angeles. Nem aos pós pré-universais que aturam (ou atuam) na formação dos imensos corpos celestes. Nem ao pó simbólico que teria nos dado consistência física no primeiro momento da criação, ao qual haveremos de voltar um dia. Nem ainda me refiro aos pós alucinógenos que afetam diretamente a sanidade mental de boa parte da população e acabam por atribular a sociedade como um todo, seja pela perdição dos viciados,  seja pela violência que os pós impõem aos lares, às ruas, à população, enfim.   

Os pós a que me refiro são aos diversos empregos do prefixo latino  “pós-“  que segundo  o Dicionário Houaiss, aberto na tela à minha frente, quer dizer “depois de (no espaço e no tempo)” que entra na formação de palavras pretensamente cultas como posfácio, pós-moderno, pós-guerra e assim por diante.  É a estes que me refiro. Pois muito me admira e até me espanta como este prefixozinho tão velho tem ganhado tanto sentido para definir a falta de sentidos que desorienta nossos dias. 

Há muito se diz que vivemos um período da pós-modernidade em que, segundo a definição de Karl Marx adotada por Marshall Berman para definir o nosso tempo, “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Esta é a sensação que temos. Nada é perene, nada chega a concluir, nada continua, a luta é vã, nossas conquistas são vãs, nossas vitórias são pífias, os sonhos não têm razão de ser, porque nossas referências e valores se sublimam. Não no sentido de se tornarem sublimes, grandiosos, perfeitos. Mas no sentido de passar do sólido (palpável), para o gasoso (volátil).  E acabar em anda, no vazio de nossas existências desassistidas de propósitos. 

Estamos no período da pós-história, onde tudo se embaralha e o que é já era e o que vai ser já foi ou nunca será. Na área da produção já estamos no pós-industrial, onde a mecânica é substituída pela automação, com enormes conseqüências no trabalho, na política, na economia e na cultura. Estamos na era pós-literária, onde o conhecimento não é mais repassado por leitura racional, mas por uma espécie de osmose emocional. Estou esperando abrir um canal de USB na minha cabeça para receber informações de roldão e aplacar minha curiosidade mórbida. 

Na área da transcendência vivemos a era da pós-religião, em que Deus é vendido como uma mercadoria tosca e banal, nas bodegas de esquina. Na política estamos na era do pós-poder, em que as antigas instituições da democracia representativa se diluem e os governantes eleitos não têm mais legitimidade nem ascendência sobre os governados. Quer para atender-lhes as necessidades, quer para coibir seus abusos. É o que estamos assistindo nas cidades e nos campos de todo o mundo. Já se fala até num período pós-humano em que o ser humano como conhecemos dá lugar a um ser de alto desenvolvimento tecnológico, mas um ser bárbaro em termos culturais. Como se diz na periferia global: é nós. Ou melhor: é pós.   

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em junho de 2014).

Gambá digital

Viver numa sociedade pacífica ou pelo menos onde se possa afastar os inimigos é um sonho que persegue a humanidade desde sempre. Ao longo da história o homem tem construído cidades muradas, fortificações, casamatas,  pontes elevadiças sobre fossos, escoltas, exércitos. Tem inventado armas pessoais, escudos, roupas encouraçadas como as armaduras medievais. Modernamente, além do retorno dos bairros murados, veem-se muitas casas com câmeras, alarmes, cercas elétricas e carros à prova de bala. Já andar armado no Brasil é só pra quem  é do ramo: a polícia e a bandidagem. 

A preocupação em não ser maltratado pelos inimigos saiu da esfera laica e adentrou o mundo transcende, por meio das religiões, rituais e superstições. Veja este trecho da Oração de São Jorge: “Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar”. 

Outro trecho emblemático desse desejo pode ser visto no Salmo 91: “Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal. Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor. Você não temerá o pavor da noite nem a flecha que voa de dia, nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia. Mil poderão cair à sua esquerda; dez mil, à sua direita, mas nada o atingirá.” 

Observando bem nas pajelanças, nas mandracas, nas rezas bravas, nas mandingas, nas benzeções, feitiçarias e sessões de candomblé, os termos são muito parecidos. A possibilidade de manter o corpo fechado e o inimigo fora de nossa aura é um sonho acalentado por todos os povos, em todos os tempos e lugares.

Talvez um modo de nos defender não fosse criar mecanismos de proteção e defesa. Mas combater o mal pela raiz, por meio da educação, da cultura e do processo civilizatório. Se pudéssemos atingir um grau de civilização tal que fosse apagado o troglodita que há em cada um de nós, convencido de que o bem faz bem a todos indistintamente, o problema estaria resolvido.

No entanto, cada vez mais isto se parece com utopia. O que vemos hoje é um avanço tecnológico sem precedentes em contraposição a uma barbárie crescente, a uma regressão cultural e civilizatória sem par, pelo menos depois da Idade Média.  Diante deste paradoxo, a solução continua sendo o velho modelo preconizado pelas rezas e superstições: fechar o corpo. 

Com o avanço tecnológico na velocidade que vai,  não está longe o dia em que possamos comprar, via online, uma armadura digital,  um elmo hi-tech, em forma de aura ou campo magnético, que possa nos proteger de tiros, bombas, facadas, choques, incêndios, pedradas, rasteiras, chaves de braço e tudo o mais. 

 Será a concretização do sonho dos devotos de São Jorge. Ou melhor, de todo ser humano em seu senso de autopreservação. Isto é, até que um hacker quebre a nossa senha, invada nossa fortaleza pessoal e nos tome tudo a golpes de pauladas.  Inclusive a vida. Como a um reles gambá no galinheiro da quinta.  


Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em maio de 2014.

Guerra civil à brasileira

Com frequência ouvimos que determinado gestor público fez algum negócio, não para atender aos interesses da coletividade,  que representa, mas para atender  aos próprios interesses. Este deveria ser o crime máximo da política. O gestor que o praticasse deveria receber pena capital: ser banido do exercício da função público.

Infelizmente não é assim.  No mais das vezes quem comete um pequeno crime fica credenciado para um crime de média monta. O que pratica um médio conquista know-how para um crime de enormes dimensões. A sociedade é um pouco, por que não dizer, bastante condescendente com os larápios da coisa pública, como se o que é público não fosse de ninguém. Nenhum corrupto dos nossos veio do Beleléu ou de Marte. São terráqueos e nacionais, vindos de alguma extração social autóctone.

 Até há um pensamento de que a corrupção não é tão prejudicial. Afinal, o dinheiro não some. Apenas muda de lugar. O roubo da merenda escolar vai para a pecuária ou para o supérfluo. Continua na economia a produzir riquezas. Não há pensamento mais tacanho. Dinheiro fora do lugar gera aleijões insanáveis. No caso, a criança sem merenda cresce com déficit protéico, deficiência que se converte em evasão escolar, analfabetismo, subemprego, sociedade capenga. O dinheiro que vai para o supérfluo no mínimo gera desequilíbrio na balança comercial. Os supérfluos são de um modo geral importados.  Ao longo do tempo isso provoca um estrago medonho.

A política luso-brasileira tem tradição no ramo. O rei de Portugal, D. Pedro II (não é o nosso Pedro II. O nosso II foi o D. Pedro IV de Portugal) assinou o Tratado de Methuen com a Inglaterra, em 1703, com validade perpétua. O rei português não queria assinar. Entendia que era perverso ao reino. O tratado era até bem singelo. Portugal (e suas colônias) só poderia consumir tecidos da Inglaterra e a Inglaterra se comprometia a adquirir todo o excedente de vinho português. Sem barreiras fiscais. D. Pedro achava que a exportação de vinho seria infinitamente menor do que a importação de tecidos, o que ao longo do tempo geraria déficit na balança comercial lusitana. Sem contar que Portugal já pagava os tufos para os ingleses fazerem sua escolta nos mares. Mas dois dos conselheiros mais influentes, o duque de Cadaval e o marquês de  Alegrete (ministros da Justiça e das Finanças, respectivamente), bateram o pé que o tratado precisava ser assinado, que seria a redenção de Portugal e coisa. No entanto, os dois ministros eram grandes viticultores e o tratado apenas atendia à ânsia de expansão dos próprios negócios.

Ao longo dos anos o negócio se mostrou mesmo ruinoso. Matou no nascedouro a indústria têxtil portuguesa, gerou um desequilíbrio monumental nas contas externas e, ao florescer o ciclo do ouro no Brasil, a produção foi quase toda pra Inglaterra a fim saldar as dívidas do infeliz tratado. Por essas e outras, depois dos feitos das grandes navegações e das descobertas territoriais que marcaram o fim do feudalismo e o início da era moderna, Portugal nunca mais se viu em posição de apogeu.

Mas com o ouro do Brasil a Inglaterra sustentou o período heróico da primeira onda da revolução industrial.  Convido o leitor a buscar na memória quantos tratados de Methuen já viu nossos gestores assinaram. Só mesmo um país “abençoado por Deus” poderia resistir a essa guerra civil dos poderosos contra o próprio país. 

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás - em maio de 2014).

Minha tristeza de desclassificado

Na última década li dezenas de obras, entre livros e teses, sobre o Brasil colonial,  na esperança de entender o período e não dizer besteiras ao escrever os três volumes do romance Naqueles morros, depois da chuva. A leitura, além da noção de como era o quotidiano da vida, me firmou algumas convicções de sentido mais amplo:
1) O ouro brasileiro  foi o insumo básico para que a primeira onda da Revolução Industrial acontecesse na Inglaterra. Vários países europeus detinham o domínio sobre as novas tecnologias da máquina a vapor. Mas, em razão dos convênios  com Portugal, só a Inglaterra  conseguiu o superávit (representado pelo ouro)  para bancar o custo social da grande virada: passar da produção artesanal das associações de ofícios para a produção de manufaturas em escala industrial. 
2) A economia mundial está vivendo um período neo-colonial, semelhante àquele puxado pela Inglaterra entre os séculos 18 e 19. Na época, a Inglaterra se impôs como a indústria do mundo. Hoje, esse papel é exercido pela China. Países periféricos, como o Brasil, funcionam como novas colônias fornecedoras de commodities (baratas)  e compradoras de manufaturas ( de alto valor agregado). Isso pode nos relegar à condição de país de civilização retardatária por mais alguns séculos.
3) O  Brasil, como pátria, foi historicamente uma grande madrasta, para boa parcela da população, os chamados “desclassificados”. Aqueles que não eram senhores nem escravos. Os homens livres numa ordem escravocrata. Falar em homens livres numa situação dessas soa até como ironia.  O mundo decente tinha lugar apenas para duas categorias: os donos dos meios de produção, de um lado, e os escravos, de outro. A produção tinha por finalidade a exportação e a subsistência. O mercado interno era menos que incipiente.  A economia de subsistência era para manter os escravos. Afinal, eram bens valiosos e precisavam ser preservados com saúde, sob pena de reduzir a produtividade e o seu valor de revenda.
Já os desclassificados não tinham lugar naquele  mundo. Viviam de bicos como agregados dos latifúndios. Praticavam a pesca, a caça e a coleta de frutos silvestres e eram malvistos tanto pelos senhores quanto pelos escravos. Os serviços que eventualmente lhes sobravam eram de vendeiro, tropeiro e empreiteiro de crimes. Dar uma sova ou eliminar algum desafeto do proprietário.  A valentia, a violência passou a ser o código de honra dos desclassificados.  Assim foi nos ciclos do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do ouro, do café, do gado e outros ciclos econômicos mais restritos.
Nos anos 60 do século passado, por uma legislação malvada, sem cogitar reforma agrária, os desclassificados foram expulsos do campo, de supetão, sem qualquer preparo. Me lembro de ver meu pai e minha mãe abraçados, chorando (até então eu não sabia que meu pai chorava) e se perguntando: o que vamos fazer da nossa vida agora?  Sem ter pra onde ir, os desclassificados se amontoaram nos arrabaldes, formando esse enorme cinturão de pobreza, drogas e violência de hoje em dia. O inferno desse pessoal vem de longe e foi engendrado nos mínimos detalhes.  

Em recente viagem à China, meu filho me mostrou imensos conjuntos habitacionais em Pequim. Ele me disse: “Estes apartamentos estão prontos para receber os camponeses que estão sendo preparados. Vão chegar aqui com moradia, trabalho e tudo o mais”. Minha tristeza de desclassificado ficou ainda mais profunda. 

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em abril de 2014).

A ideia de ser bacana me seduzia

Por alguns períodos trabalhei como diarista para o empreiteiro Fernandes, durante o tempo em que eu fazia o ginásio.  Só por uns períodos, porque ele não trabalhava na região o ano todo. Ia sempre para onde lhe ofereciam boas empreitadas. Em nossa região pegava mais era roça de arroz pra capinar. Certa vez pegou para arrancar tocos e árvores de um cerrado e levou manta. Nunca mais caiu nessa. 

Quando o serviço escasseava por perto, ia lá pras bandas do Bugre, do Córrego Seco e da Jacuba. Até na região dos Delfinos ele já andou trabalhando. A jogada dele era pegar bem a empreita e contratar braçais para ajudá-lo. Aí é que eu me incluía. Eu gostava de trabalhar com o Fernandes. Havia outros empreiteiros, mas exigiam total concentração no golpe da ferramenta. Certa vez trabalhei com o Teodoro. Era gente boa também, mas caladinho e a gente não podia falar nem rir de nada. Se a gente risse de qualquer coisa, logo dizia, “muito riso, pouco siso”. Já o Fernandes era bem liberal. Ele mesmo, um grande contador de casos e anedotas. A gente podia rir à vontade. 

Acho que a maior satisfação do Fernandes era contar as lendas dele mesmo pra gente achar graça. Mas tinha a manha para, mesmo rindo, o serviço não perder o embalo. Separava um eito de roça, com duas becas de arroz para cada enxadeiro e chamava a moçada no desafio: “quem ficar pra trás é mulher do padre”. E imprimia uma coreografia alegre, num ritmo que todo mundo acompanhava e o serviço rendia pra caramba.  E o melhor de tudo é que depois do meio dia ele separava um talhão e me dava como tarefa. Ao terminar estaria liberado para cuidar das minhas coisas da escola. Eu carpia sem parar e ali pelas quatro horas já estava indo pra casa.

Fernandes me dizia que o ressentimento dele era não ter estudado mais. O seu irmão Andrade, que tinha estudado até o ginasial, mudara para Goiânia há alguns anos, tinha um emprego bom e levava vida de bacana. Era amigo até do famoso Moraes César, do programa de rádio.  Alugava um quarto só pra ele, comia de marmita, tinha direito a férias, vestia roupa de carregação e era dono de uma lambreta.  E me animava que se eu estudasse, ainda ia ser um bacana como o irmão dele, o Andrade. 

Certa vez, num domingo, o Fernandes chegou lá em casa com o Andrade. Um tipo moreno, maior que o Fernandes, que já era grande. Do modo que minha tia olhava pra ele, devia ser bonito. Vestia roupa da moda, uma camisa volta-ao-mundo, transparente, apertada e bem curtinha, que depois que foi embora minha mãe falou que era uniforme de tomar purgante. Não acreditei e desejei ter uma. Meio sem jeito eu lhe falei que o Fernandes comentava que ele era estudado e tinha um bom emprego. Vaidoso, sorriu consentindo. Eu quis saber qual era profissão. Ensimesmado, me disse: “gari”.  Não tive coragem de perguntar o que fazia um gari. Mas achei que era granfa e isso me marcou. Anos mais tarde, cheguei a Goiânia. Por indução ou coincidência, meu primeiro emprego foi gari, ou melhor, de faxineiro numa escola. Isso depois de ser reprovado como pacoteiro na loja A Revolução Tecidos.   

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em abril de 2014).



O efeito colateral do Biotônico


Acho que ainda não narrei aqui um fato casual ocorrido quando contava com mais ou menos oito anos de idade  e que foi decisivo para que eu viesse a estudar e tentar a sorte na Literatura. A gente morava num rancho de folhas de palmeiras, afastado de vizinhos. Naquele tempo e lugar o normal era que ninguém soubesse ler e escrever, a não ser os patrões. Minha mãe não lia, meu pai apenas soletrava, mas tinha dificuldades em reunir as sílabas em palavras, numa espécie de gagueira pré-leitura. Às margens do Rio Claro, no Oeste Goiano, meu destino, como o das demais crianças, parecia já bem definido: seria analfabeto e trabalhador rural sem terra, como meus pais.  Um belo dia um divulgador do Biotônico passou por lá. Fez degustação com uma colherzinha de chá da tintura para cada um de nós. Achei gostoso. Nem parecia remédio, pois os que minha mãe fazia de casca, raiz ou folha eram sempre amargos ou de gosto horrível.  Me viu magrelo o homem e logo argumentou que o remédio era bom pra abrir o apetite, e tal. Como meu pai não tinha dinheiro para a aquisição, rebateu com espírito: Apetite ele tem. Até demais.

O que falta é comida. Sem jeito de realizar a venda o homem ficou por ali esperando que saísse qualquer coisa pra comer. Meu pai caprichou: jogou um cacete no pescoço de um frangote que ciscava na larga, que ele acertou de primeira, e minha mãe fez com molho de açafrão. O feijão já estava cozido na trempe lá fora e o arroz pilado e lavado na cuia. O assunto com meu pai parecia  apagar  e para não ficar à-toa enquanto esperava, ele puxou de um revistinha e começou a ler pra mim umas charadas do tipo o que é, o que é: nasce em pé e corre deitado? Passou para umas historinhas, que vim saber mais tarde que eram de Monteiro Lobato. Fiquei encantado: como podia alguém correr os olhos sobre aquele tanto de formiguinhas mortas em cima do papel e ir falando coisas que eu achava tão bonitas?! 

Depois do almoço, após elogiar a hospitalidade, o molho de frango e meu interesse pela leitura, ele se foi. E para meu júbilo deixou um exemplar do Almanaque.  Como prestara atenção na leitura eu repetia em voz alta as charadas e as historinhas. Sempre que havia oportunidade de encontrar alguém eu sacava logo do Almanaque, que levava no embornal e “lia” para os interlocutores.  Todo mundo fingia achar que eu sabia ler. Hoje sei que é fingimento porque nunca me chamaram para ler algum bilhete ou carta que parentes houvessem mandado.

A partir daquela experiência, como efeito colateral do remédio, adquiri e reforcei a convicção de que eu iria estudar ainda, aprender a ler de verdade e escrever histórias como aquelas. Ninguém acreditava nisso, além de mim. Não existiam escolas num raio de 40 km e nem recursos havia para que eu fosse pra perto de uma delas. Meu pai não ia deixar seu meio de vida no sertão. Mas a roda da vida foi girando, orientada por esse propósito, de tal sorte que em 1963, aos 11 anos,  com a venda de minha parte numa colheita de feijão, comprei meu primeiro enxoval de estudante entrei pro curso primário no Grupo Escolar Israel de Amorim, em Iporá. Acho que foi um milagre. O que posso fazer para beatificar o Almanaque do Biotônico Fontoura?  


Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em abril de 2014.

Sinais da chuva

Todo tempo tem seus sinais e todos os sinais têm seu tempo. O clássico Xote das meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, inicia com a floração do mandacaru sinalizando o início da chuva, levando fertilidade ao solo e fartura pro sertanejo: “Mandacaru quando fulora na seca/É um sinal que a chuva chega no sertão.” Depois os versos comparam, com poesia e graça, a floração do mandacaru com o abandono da boneca pelas meninas, com a fertilidade vital trazendo as dores e as alegrias da idade: “Toda menina que enjoa da boneca/É sinal de que o amor já chegou no coração”. 

Os sinais são elementos imprescindíveis à cultura sertaneja. Toda pessoa curtida no campo tem o seu arsenal de sinais para dar orientação e sentido às suas ações. Para quem vive da economia de subsistência, plantar e colher estão na base de tudo, de onde provêm todos os impulsos para organizar a agenda, o calendário, a vida. Para o homem urbano, já desvinculado da própria sombra, da bulha do fôlego e outras sutilezas, esses sinais se parecem a superstições ou mesmo bobagens de quem não perdeu os cacoetes da ignorância nos bancos escolares.

Um sertanejo pode prever, com grande chance de acertos, se em determinado ano haverá tempestades, que intensidade terão e até saber a direção dos ventos. Se ele notar que o joão-de-barro está reduzindo a porta de entrada de seu lar é sinal de que aquele ano terá maior incidência de chuvas bravas de média intensidade. Se ele abandona o velho lar, e constrói um novo, é sinal de que as tempestades virão com alta intensidade. Já se ele troca apenas as palhas do ninho é sinal de que terá um ano de chuva mansa. Ah, e o fundo da casa do joão-de-barro está sempre voltado contra o vento. A ventania na direção da entrada pode ser fatal para os filhotes. 

Já o sabiá é um sensor de aproximação das chuvas. Seu canto pode indicar chuva em até cinco dias e o roceiro se mobiliza para o plantio, aproveitando bem a janela da chuva. Que é pra ter tempo de plantar o milho e na mesma terra o feijão e culturas de complemento como a melancia, a abóbora, o quiabo e o mangarito. Mas não é qualquer cantiga de sabiá que indica chuva, não. Tem a música certa pra isso. É mais tristonha, pautada em si bemol menor, geralmente entoada no final do entardecer. A diferença de outros cantos que nada têm a ver com chuva é muito sutil. É só para quem tem tino, ouvido afinado e vivência. No final da seca, se os cupins aumentam seus cupinzeiros para cima, é sinal de chuva farta. Se os acréscimos são nas laterais é sinal de pouca chuva. Outras dicas de meteorologia podem vir do voo dos pássaros, dos enxames de abelhas, do modo como os peixes batem na água do rio e até pelo calo que dói. Mais pro final das águas, se as formigas correição andam em fileiras pelos campos sinalizam que a chuva vai parar mais cedo. Mas quando as acauãs entoam em dupla, nada tem a ver com chuva. É na certa algum parente que morreu. 

Como citadino egresso do campo, já descobri alguns sinais urbanos da chuva: Se minha TV a satélite está com a imagem boa, não chove hoje. Se chuviscada, chuva no período. Agora, se a imagem cai, pode recolher as roupas do varal, que a chuva chega dentro de meia hora.

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em março de 2014).

Umas gotas de história

A inveja, a covardia e a iniquidade são comportamentos e atitudes que nos acompanham desde os primórdios. Dos tempos míticos vem o clássico assassinato de Abel pelo irmão Caim, por motivos de inveja. Malgrado os milênios que nos separam e o desejo das pessoas de bem para que a bondade prevaleça, vemos que a ruindade se banalizou em nossos dias. Do noticiário só nos vêm imagens de crimes e mais crimes. Cada vez mais violentos, fúteis e hediondos. E parece que não há no horizonte sinais de que algo possa reprimir essa escalada do mal-querer.

Assim como a história da cristandade, com Caim e Abel, também a história de Goiás se assenta sobre um crime estarrecedor. Bartolomeu Bueno da Silva, o Segundo Anhanguera, gastou a vida e a fortuna da família com suas bandeiras, as expedições caríssimas e de alto risco pelo desconhecido sertão do Brasil-Central, em busca de ouro e outras riquezas minerais. Depois de longas e penosas viagens, em 1725, Anhanguera finalmente descobre os jazigos de ouro nos arredores das Serra Dourada e em mais quatro outros sítios. Pelos feitos extraordinários e pelas descobertas auspiciosas, D. João V, rei de Portugal, manda que o Governo de São Paulo entregue, por três gerações, como pagamento ao descobridor, as passagens dos rios de São Paulo até as minas dos Goyazes, as faixas de terras dos dois lados da longa trilha, as catas de melhores pintas, além da patente de Capitão e o cargo de Superintendente Geral das Minas. 

Na passagem dos rios o Anhanguera colocaria balsas e cobraria pedágios, nas terras faria lavouras e criaria gado, que seriam consumidos nas estalagens que construiria para acolher as pessoas que viajassem às minas. Das catas tiraria o ouro e ainda receberia o salário pela gestão da indústria garimpeira. Anhanguera, já um sexagenário, viu que sua luta não teria sido em vão. Finalmente chegara a sua vez.

Ledo engano. O governador de São Paulo, um certo Caldeira Pimentel, colocou criminosos de sua quadrilha para invadir e tomar os bens recebidos pelo Anhanguera. Tomou as passagens dos rios, as terras, as catas minerais. E quando o Anhanguera já estava bem cansado de lutar contra a quadrilha, o governador o destituiu do cargo, alegando que ele não tinha mais condições de gerir as minas. E para humilhá-lo concedeu o cargo de Guarda-mor da cidade de Goiás (que se chamava Arraial de N.S. de Santana) sem lhe dar um policial sequer para o cumprimento de suas funções. 

Para reclamar dos esbulhos sofridos, Anhanguera mandou a Portugal uma comitiva liderada pelo seu genro João Leite da Silva Ortiz (fundador de Belo-Horizonte e que dá nome a esse rio que banha Goiânia). Caldeira Pimentel, ardilosamente, plantou em sua comitiva um padre fajuto, de nome Matias da Silva Pinto, que matou João Leite envenenado com arsênico, em Recife, antes de pegar o navio para Lisboa. E ainda ajudou as autoridades do Recife a roubar os 26 kg de ouro que Ortiz levava para engraxar os desembargadores do Conselho Ultramarino. Pobre e desiludido, Anhanguera morreu em 1741, sem reaver os bens.     


(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em março de 2014)

O susto de um encontro inesperado

Se a gente passasse muito tempo, tipo 30, 40 anos, sem ver a própria imagem  nos espelhos ou nas fotografias, por certo quando a gente desse de testa com a  imagem refletida, cairia de costas pelo susto. Tive esta experiência anteontem. Encontrei uma antiga namorada, dos tempos colegiais. Ela me reconheceu primeiro e só consegui me lembrar dela depois que se identificou. Mas percebi de imediato o horror estampado na cara daquela mulher que encontrei casualmente. Era com se eu tivesse a cara esbagaçada por uma bala perdida e mesmo assim zanzasse pela rua.

Suponho que sua cara de susto equivaleu à que Barak Obama fez ao puxar a capivara da presidente Dilma, em seus atos de espionagem amiga. Antes que digam que estou injuriando a presidente, explico: “capivara”, na gíria policial, é aquela biografia depreciativa, de passagens pela polícia e atos infracionais cometidos, que a polícia civil costuma guardar das pessoas. Nada tem a ver com mulher desajeitada. 

Ela (a antiga namorada) me disse, querendo ser legal: Você está bem, bonitão. Parece uns dez anos mais novo. Mas eu que sei, ou pelo menos julgo saber a leitura das expressões  faciais e corporais, não foi nada disso que ela pensou a respeito de minha triste figura. Muito pelo contrário. Ela me achou foi só a capa da gaita, ou o pó da bactéria e não me estranharia que, pela sua expressão mais de pavor que de surpresa, tenha me achado pelo menos uns 20 ou 30 anos mais velho do que sou na realidade. 

Em compensação eu não a achei tão velha assim. Só achei que não era ela. Porque nada nela é original; a não ser o pecado e a certidão de nascimento. Ela está ocupando uma circunferência muito maior. Está mais baixa, os peitos estão empinados de uma forma escrota, a bunda está avantajada e alegre, seus olhos estão repuxados e verdes. Nos tempos de adolescente,  seus peitos era miúdos, sua bunda era quase uma tábua de passar, seus olhos eram piedosos, cor de xarope na contraluz. Os cabelos eram longos, castanho-escuros, agora estão curtos,  loura-palha.  Os dentes eram pequenos e embaçados, agora são longos e da mais alva porcelana. A voz dela era delicada e doce, agora está esganiçada e acre como a de uma cortesã de arrabalde. 

Outra coisa que notei é que ela está muito mais liberal, espontânea. Quando a gente namorou, para tirar dela um beijinho tivemos que comer muito hot-dog no quiosque da esquina e para um amasso de jeito, quanta pipoca tivemos que consumir no escurinho do cinema!     

Agora, não. Mesmo me achando uma bucha de laranja depois do coice, me abraçou com fome, me piscou insinuante o olho direito e me falou que precisávamos encontrar mais vezes para concluir umas coisinhas que não tivemos a capacidade de terminar naquela época. Eu lhe disse que sim. Mas se ela aprendeu a ler gestos e expressões corporais, terá percebido que eu disse que não.

A lição que tiro é que é uma bênção a gente ter espelhos por todo lado que anda e com a proliferação das máquinas fotográficas nos celulares a gente se vê nas fotos quase que diariamente. E vai se acostumando. Não fosse assim, de tempos em tempos, a gente teria motivos era para pânico. E até usar luto fechado.    


 (Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás  em fevereiro de 2014)

Apontamentos para um romance policial

Grael era diferente dos quatro irmãos, que ele chamava de “medíocres”. Pessoas que pensam em estudar para ter uma profissão, creem que o trabalho precede o descanso, que o ganho precede o gasto, que a carreira vem antes da aposentadoria. Grael costumava dizer que estudar é pra quem não tem talento. Citava sempre o Lula, que é sem estudos mas põe qualquer doutor no bolso.

Apesar do discurso, Grael viu os irmãos se darem bem, multiplicando a herança que receberam dos pais, que não eram ricos como esse pessoal do Vale do Silício, mas para os padrões terceiro-mundistas eram bem remediados. Ao contrário do presidente Lula, Grael nunca achou a sua política. Jamais engrenou em algum trabalho que valesse à pena. Sempre metido em algum negócio miraculoso, que quase sempre não dá em nada. De vez em quando entra em frias. Os irmãos o socorrem, por dever fraterno. Grael constituiu uma família ressentida. Os filhos dele, ao verem os primos ricos, acham que os tios passaram a perna no pai. Mesmo assim, seus filhos estão se preparando para uma vida melhor. Menos a Malvina, que puxou ao pai e vive pensando em dar um golpe e subir na vida como quem salta de vara.

Grael e a filha Malvina bolaram um plano: fizeram um seguro de vida milionário em nome do pai, tendo a filha como beneficiária. Combinaram em simular a morte do pai para a filha botar a mão na grana. Dividiriam o dinheiro entre ambos. O pai passaria a viver na clandestinidade, mas rico e com a proteção da filha.

Malvina cresceu o olho na grana e quis ficar sozinha com a bolada. Em vez de simular a morte do pai, mandou um pistoleiro, disfarçado de assaltante, matá-lo de verdade. Ao tramitar o processo de resgate do seguro, Malvina se apaixona pelo gerente do banco. Como não há segredos entre enamorados, Malvina lhe contou dos planos rocambolescos de enriquecimento. O namorado-gerente, numa paixão financeira extrema, lhe pediu a mão e se casaram em regime de urgência.

No trâmite burocrático para liberar o dinheiro, a superintendente regional da  seguradora, que desde há muito é apaixonada pelo gerente, lhe falou que sabia da tramoia e que poderia denunciar à polícia. A condição para não haver denúncias era o gerente livrar-se da esposa Malvina e, numa outra paixão apressada, casar-se com a superintendente. Ainda na lua-de-mel, Malvina, que tem espírito aventureiro, caiu de uma altura de mais de 50 metros, sobre uma pedreira contundente, onde praticava rapel, sem deixar suspeitas de ardil.

O gerente, agora viúvo e herdeiro dos defuntos, casa-se com a superintendente numa cerimônia restrita. O dinheiro saiu, como era o desejo de todos. O gerente, agora casado com a superior, está rico. E acha que nada pode lhe atingir.

Mas como ninguém está livre da desdita, ao fazer um check-up de rotina, a enfermeira, por orientação da esposa, lhe aplica uma injeção de ar na veia e ele morre de ataque cardíaco, sem deixar vestígios de assassinato. A superintendente, agora viúva e com a grana de Grael, aceitou um velho pedido de casamento do diretor. Que é velhote e tem uma apólice de seguro, maior ainda.

Bentinho, que é detetive particular e caçador de recompensas, está eufórico com essas mortes em série.

(Publicada no jornal O  Popular - Goiânia - Goiás em fevereiro de 2014).

O policial de vocação congênita

Tem gente que passa a vida inteira pensando o que vai ser quando crescer. Começa vários cursos e abandona para fazer outro, de área diferente. E, às vezes, quando finalmente conclui o curso, vai trabalhar noutra coisa que nada tem a ver. Assim mesmo faz um serviço meio encolhido, sonhando que poderia ser outro. Gente assim nunca vai sentir-se inteiro numa carreira profissional. 

Para quem vem ao mundo com uma vocação congênita a vida é muito mais fácil. Eu mesmo, nunca tive dúvidas. Sempre quis ser policial. Minha mãe conta que, desde pequenininho, o meu brinquedo preferido era ser polícia. Ela diz que meus irmãos, primos e amiguinhos brincavam com carrinho de boi de sabugos, de fazer boiadas com ossos de suã de cabrito, carrinho de lobeira, jogar bola de meia, carrinho de rolimã, bola de gude, briga de galo, finca, pião, essas coisas. Comigo era diferente: meu brinquedo era ser polícia. Não me distraía com mais nada. Amarrava uma fita de pano na cintura, enfiava entre ele e o cós da calça um pedaço de pau como cassetete e alguns sabugos como revólveres e saía pei!, pei!  disparando o trabuco e matando bandidos. A pessoa que eu alvejasse tinha que cair. E tudo mundo já sabia disso e caía. Quem fugisse desse comportamento eu partia pra cima com tudo com meu cassetete e descia o mutambo. Todo mundo achava mais fácil cair com o tiro do que se livrar de minha fúria e meu cassetete feroz. 

Meus pais e tios tinham que me vigiar o tempo todo porque senão eu machucava os outros meninos. E até os adultos. Pior era quando eu elegia algum objeto ou animal como o meliante. Quebrei várias cabaças d’água de meu pai, na cacetada. Matei muitos leitões e cachorros novos. Os pintinhos que eu elegia bandidos morriam fatalmente trucidados. Meu pai manifestava preocupações. Temia que eu pudesse vir a ser um adulto violento e problemático, porque quando eu batia nas pessoas ou matava animais, não mostrava sinais de pena, nem arrependimento. Antes, sentia um contentamento excitado. Minha mãe achava que com o tempo eu ia me ajeitar. Me tornar um menino de bons modos, do jeito de meus outros irmãos. 

Fui problema na vizinhança e na escola. Aliás, qualquer coisa de ruim que acontecia na comunidade, sem qualquer indício ou prova, eu era logo apontado como o autor da façanha. Na escola quebrei o nariz de muitos guris metidos a besta e surrei professoras arrogantes. Fui expulso de quase todas as escolas que frequentei. Mas do meu propósito de ser polícia nunca abri mão. 

Quando atingi a idade e os pré-requisitos, me tornei naturalmente um policial. Odeio serviço burocrático. Minha alegria é estar na rua, no combate direto com a bandidagem. Gosto de confronto, de trocar tiros, de surrar um neguinho até ele mijar sangue, do jeito que eu fazia com os bandidos inventados de minha infância.
E quando sou chamado para atender a uma ocorrência, é certeza de que alguém vai sair surrado. Sou implacável com os bandidos. Mas se eles me escapam, não perco a viagem. Provoco as vítimas até elas desacatarem minha autoridade. Aí eu desço o cacete nelas, sem dó. Comigo é assim: chamou tem adrenalina.  

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em 11 de fevereiro de 2014).
   


Minha premonição de consumo

Numa crônica anterior relatei que outro dia me aconteceu um lance que até agora não entendi direito. Se foi coincidência ou se o marketing já conseguiu invadir a intimidade de nossos sonhos, enquanto dormimos. De madrugada sonhei que estava voando, com asas cômodas e bem ajustadas. Um voo gratificante e plácido, sobre paisagem deslumbrante, numa tarde fagueira de minha infância. O voo ainda em andamento, acordei com o sinal sonoro do celular sinalizando a chegada de uma mensagem de texto. Pesaroso pela interrupção do sonho tão bom, leio a mensagem: “Dica do dia: realize seu sonho de voar. Pratique um esporte de pura emoção. Venha voar com a gente.” Na sequência, os dados da empresa que prometia a concretização do sonho. Coincidência ou armação?  As coisas como andam, dá mesmo pra desconfiar.

Minhas suspeitas de que o marketing invade a vida mais íntima das pessoas se firmaram ainda mais. Ocorre que ontem tive outro sonho. Mas ao contrário daquele outro, era bem pavoroso. Sonhei que estava no sítio, curtindo numa boa o final de semana. De repente chega de não sei onde um camarada de fita métrica, caderneta e lápis na mão. Dava pinta de ser alfaiate.

Sem maiores rodeios, esticou a fita em minha direção, enquanto dizia que era representante de certa empresa de serviços funerários e que ele fazia parte de um departamento proativo. Estaria ali para tirar minhas medidas e deixar no computador da empresa. No dia que eu fosse embarcar na canoa definitiva, tudo já estava mais fácil. Era só o responsável, um herdeiro meu, passar as informações de uma ficha que ele deixaria comigo e em minutos meu caixão sob medida estaria pronto, feito por robôs. Isso baixaria custos para a empresa, que seriam repassados para os clientes, pois não precisariam mais ter ataúdes em estoques. E o camarada era sabido. Até falou que essa ferramenta de trabalhar sem estoques era o que há de mais avançado em estratégia de Marketing  e se chamaria Just in time.

Passei-lhe uma descompostura e mandei que fosse bater noutra freguesia de defuntos. Mas o tipo era um profissional moderno, daqueles que não aceitam “não” como resposta. Saiu, foi até o carro e voltou com a mesma cara lépida, com um aparelhinho na mão. Parecia um teodolito eletrônico. O negócio emitia raios e ele o apontou pro meu lado. Puxou um gatilho e emitiu um flash. Pronto, ele disse, as medidas que eu preciso já estão todas aqui. E foi saindo como quem tivesse uma lista enorme de clientes para visitar. 

Como no sonho que relatei anteriormente, acordei no meio da madrugada, com o barulho do celular avisando que tinha mensagem nova. Intrigado, fui ao celular e li: seus momentos de pesar e dor merecem toda a dignidade. Contrate hoje mesmo nossos serviços póstumos. Ao perder um ente querido, sofra apenas a dor da perda e o luto natural. A dor da burocracia deixe conosco. Fale a empresa tal.

Agora estou mais intrigado ainda com o poder do marketing. Porque se não for isso, será coisa pior. Eu estaria desenvolvendo uma habilidade mediúnica, por revelação em sonho, de saber previamente as mensagens comerciais que vou receber. Seria o consumo levado às raias da transcendência. É tudo o que não desejo na vida.    

(Crônica publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em fevereiro de 2014).

Cenas de terror explícito


A seca que se alastrou por último veio escasseando todos os meios de sobrevivência. Acabou com a plantação, os animais, os sonhos. Nem calango se achava mais. Nonato deixou o sítio no agreste e caiu no mundo em busca de recursos pra acudir a mulher, os sete filhos e o cão Lambada, um exímio caçador de calangos. Quando calangos ainda havia.

 De cima do pau-de-arara, Nonato olhou penosamente a paisagem pela última vez. Os filhos abanaram as duas mãos, a mulher ensaiou um beijo murcho e fez cara de choro. Não caíram lágrimas por falta d’água. O cão Lambada, escorado na cerca de varetas tortas, uivou sofrido. A paisagem de casa foi sumindo e o retirante entrando em um mundo novo, cheio de pavor, com algum tempero de esperança. Não importaria o que acontecesse: assim que levantasse um dinheirinho voltaria para socorrer a todos. Enquanto isso haveriam de sobreviver como Deus era servido.

Nonato foi se enfiando Amazônia adentro. Lugar de exuberância e verdor, onde a seca se dá, não por falta d’água, mas de compaixão. O deserto não está no clima, mas nas almas. Só bem tarde percebeu. O gato (dono do pau-de-arara) entregou Nonato (agora, peão do trecho) numa madeireira clandestina. O novo patrão mandou passar no armazém e abrir uma conta. Tudo o que usasse seria descontado do ganho. De seu salário mindinho, que é o justo ali na região. Assinou o caderno, pegou banha, feijão, arroz, charco e sal. Faria um banquete pra começar animado. O do armazém lhe avisou pra pegar folhas de serra e alavanca. Tudo era por conta do peão. Tudo mesmo.

Nonato pegou no serviço, cuidando para não estragar as ferramentas. Rolava as toras sobre o carrinho da serraria, grampeava, ajustava as serras, empilhava as madeiras já beneficiadas. Com muito cuidado. Seu sentido estava lá no sítio, com a família comendo na tábua. Seria competente para responder às precisões.

 A vida nova era feita de trabalho duro com banhos de rio ao fim da tarde, sempre acompanhado por capangas e o filho do patrão, armados até os dentes. Certa vez salvou o moço de um afogamento. O moço agradeceu e suplicou que não contasse ao pai. Disse que o pai o espancaria se soubesse dessa fraquejada.

 Pelas contas de Nonato, dois meses se passaram e o patrão não dava sinais de fazer pagamento. Nem pra ele nem pros outros braçais. Certo dia calçou a cara, enfrentou a carranca do patrão e perguntou pelo pagamento. O patrão simplesmente mandou que procurasse o responsável do armazém pra ter uma idéia de como estava sua ficha de deve/haver. Sua ficha estava afundada no deve. Três vezes mais do que o haver. Estaria sempre prisioneiro daquela condição. Comentou com os colegas. Eles também já suspeitavam da roubada. Nonato, como que munido de representatividade, resolveu inquirir o patrão que sacanagem era aquela.

O patrão não era de alisar. Pior que casca de pereba, se diz.  Para dar exemplo, mandou amarrar o rebelde de comprido na tora serrando, com o gancho das pernas virado pra fita. Quando a serra já lhe roia a roupa, quase dilacerando as ferramentas da virilha, veio correndo o filho do carrasco, aquele que lhe deveria ter dívida de gratidão. Inadvertido, Nonato ainda gritou: lembra que te salvei do afogamento?    

  

Rei Arthur e o Batmóvel a pensamento

Meu netinho Arthur, de três anos e meio, veio passar o dia aqui em casa. Já chegou ligado na programação do dia, que ele mesmo traçou: Ir à loja de brinquedos, comprar o carro do Batman, o  Batmóvel, de controle remoto. Estava tão agitado que até se esqueceu dos rituais de aproximação e encontro. Não deu a corridinha costumeira para o abraço com beijos, nem perguntou se a vovó estava bem. Ainda à distância foi logo gritando que queria o vovô para comprar o Batmóvel.

Minha filha se foi pra correria dela. Tentamos ganhar tempo com o reivindicante. Oferecemos petinha, batata frita, jujuba e nada de fazê-lo abandonar a ideia fixa de adquirir o tal do Batmóvel. A vó falou que ia fazer omelete, pra ele tomar com suco de caixinha. Em vão.  Propôs ligar a televisão no canal de desenhos. E nada.

Já estava passando do pedido cordial para a exigência com irritação. Seus olhos já marejavam em sinais de pretensões contrariadas e brotavam em seu rosto as primeiras rugas da birra. Me lembrei que ele gosta muito de brincar com o aparelho de tomar pressão. Retirei-o da caixa e já vim com a pulseira aberta: o vovô vai tirar sua pressão. E ele, inabalável, disse, recolhendo os braços para trás: Não quero. Depois quem é que vai devolver minha pressão? E, sem dar tréguas, continuou na insistência, já começando uma sessão de dança birrenta.  

Se fosse pai, eu o teria contido, para efeitos pedagógicos. Mas como não é esse o papel do avô, falei pra minha mulher: Arruma que nós vamos comprar o Batmóvel para esse Rei Arthur. Eu já tinha visto o Batmóvel num supermercado mais barato do que na casa de brinquedos. E lá fomos nós, contaminados pelo entusiasmo infantil. O Arthurzinho achou o supermercado longe de casa. Achou que a fila demorou. Mas foi questão de meia hora já estávamos de volta, com o Batmóvel possante em sua caixa de papelão e transparências. 

Chegamos em caso e sentamos ao chão, eu, minha mulher e o netinho, como três crianças embevecidas, para desembrulhar o mágico veículo. Retiramos a sacola de plástico, o embrulho de presente, abrimos a caixa, removemos os amarrilhos e ligamos os interruptores pra ver o bólido do Batman correr pela sala. Mas, para decepção geral, o carro viera sem as baterias. 

Imediatamente eu e o Arthurzinho encaramos a chuva, sob uma sombrinha troncha, em busca das baterias. Fomos às lojas próximas. E nada. Voltamos pra casa. Peguei o carro e fomos a uma casa especializada. Comprei as pilhas 2 A para o carro e a bateria 9 volts para o controle. Voltamos correndo e finalmente montamos o veículo. Não demorou muito para que o pequeno percebesse que o carro às vezes se movia sozinho e começou a chamá-lo de carro-fantasma, simulando medo. Eu disse que era só interferência das ondas de rádio. Passamos o dia brincando numa alegria pueril. Ao fim do dia, quando minha filha veio buscá-lo, aproveitando os movimentos autônomos do carrinho, ele fechava os olhos e exibia demonstrações de como movê-lo só com a força do pensamento. E a gente ria alto, em completa felicidade e ternura avoenga.         

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013).



A última folia de reis de Geraldo Lourenço

Meu pai era folião de reis. Começou adolescente, como palhaço. Passou por todas as posições. Fazia todas as vozes, tocava todos os instrumentos. Tinha de cor os cantos e o momento exato de entoá-los. Dançava catira, tirava terço e leiloava prendas. Sabia afinar os instrumentos. E eventualmente até consertar os defeituosos. Na verdade, alguns ele mesmo fazia, como o zabumba, o pandeiro, o pífaro de taboca com embocadura de cera e o reco-reco de canoinha e mola de arame. Mas reconhecido mesmo era como o embaixador de voz possante e afinada.    

Naquele ano tive a felicidade de acompanhar meu pai a folia inteira. Desde a saída da casa do alferes Augusto Silvério, até o imperador ou festeiro Odilon Pereira, ambos na fazenda Macaco. O giro cobriu uma área enorme: regiões da Pindaíba, Santo Antônio e Canoas, além da fazenda Macaco, município de Iporá. 

Uma chuva fina, quase névoa, caía sem intervalos desde o início de dezembro. As trilhas das fazendas eram pura lama escorregadia. Especialmente na região do Macaco, de terra massapé. Nos sete dias de giro meu pai teve crises. Algumas vezes lhe faltou fôlego e sua voz entrecortava. Corria em seu auxílio o sobrinho, também folião, Zé Lourenço. Esta é uma lembrança viva em minha memória, como se tudo tivesse acabado de acontecer. Mas lá se vão quase cinco décadas. Era 5 de janeiro de 1965. Num esforço extraordinário, meu pai superou as fragilidades da saúde, fez a entrega da folia, por glória e honra do Menino Jesus e dos Santos Reis, os magos do Oriente: Belchior, Gaspar e Baltazar. Depois do terço, ainda viriam o catira, o leilão das prendas, a comilança e o arrasta-pé até o amanhecer. 

Mas, no alvoroço, meu pai me passou a lanterna e disse: vai lá no piquete e pega o Pedrês, e vamos embora. Não me sinto bem. Joguei um baixeiro nas costas para amenizar a chuva, fui ao pastinho, enfiei o buçal na cabeça do cavalo e vim puxando pelo cabresto. Meu pai, um vulto triste à luz do lampião, já me esperava na casa dos arreios. Arriamos o cavalo e partimos, por volta da meia noite. Meu pai me jogou na garupa, montou no arreio e nos cobriu com a capa de feltro. Eu não vi mais nada, o burburinho ficou abafado e foi sumindo à medida que nos distanciávamos. 

Agarrei-me à cintura de meu pai. Senti-me seguro e próximo a ele como nunca me sentira antes. A escuridão sob a capa, o som abafado da chuva, o sono, a andadura, o cheiro forte de suor do cavalo misturado ao odor de fumo que exalava de meu pai me deram a sensação de que eu entrara num mundo amoroso e mágico. Como se recolhido num útero. Talvez um útero mais tosco. De pai é que era. 

Havia momentos em que a cavalgadura escorregava das quatro. A destreza de meu pai com a rédea soerguia o cavalo e o aprumava novamente, dando sequência à viagem. Apesar dos escorregões e solavancos, chegamos ilesos, no alvorecer. Minha mãe assustada viu que havia algo de errado. Meu pai falou da fadiga, do fôlego curto. Soltei o cavalo enquanto minha mãe acendia o fogo para fazer um chá. E meu pai mal supunha que na próxima folia já estaria morto, devorado pelo mal de chagas, antes dos 40 anos. O sobrinho Zé Lourenço herdou a folia e gira até hoje.


( Publicada em O Popular - Goiânia - Goiás em janeiro de 2014)  

Prenúncios da tempestade


Era um setembro qualquer: manhã radiante, prometendo sol e calor o dia todo. Mas não tardou para que alguns sinais aziagos começassem a se manifestar. Logo cedo, ao calçar as botinas, meu pai reclamou que o pé esquerdo, que sofrera um trauma na infância, tinha voltado a doer.  E pressentiu que algum acontecimento estranho estava por vir. Minha mãe benzeu-se com o sinal-da-cruz. 


Assim que meu pai pegou a cabaça, o prato de almoço, a enxada e foi pra roça, uma galinha carijó, do pescoço pelado, saltou enfurecida sobre o palanque dos galos, no terreiro dos fundos, bateu as asas no peito e cantou um canto esganiçado de um galo de improviso. Minha mãe persignou-se. Agora com as três cruzes. Mas não me disse nada. Talvez para não me assombrar. Nem precisava. Eu já percebera que alguma coisa malina se aproximava de nós.

Minha certeza foi aumentando assim que outros sinais premonitórios foram mostrando a cara. Um tatu-bola, que a gente criava como pet e que já esquecera os ofícios escavatórios, cavou afobado um buraco no chão mal batido, num canto da cozinha, e lá se refugiou. Vi nos arredores que os cupins estavam tapando os suspiros dos cupinzeiros, em regime de urgência. As aranhas deixaram as teias baldias e se alojaram dentro das palhas do beiral do rancho. As pererecas começaram a raspar em pleno sol. Fileiras de formigas-correição se formaram de repente nos arredores, que se podia ouvir o rumor das procissões. Os anus-brancos entoaram, por entre os galhos da paineira, sua sinfonia ressentida, com maior ressentimento agora.  E os urubus não planaram em revoo, como é de costume, nas lonjuras do céu: faziam voos rasos e ofegantes, saltando de pau em pau, como sofrendo pavor de altura. 

Afora essas sutilezas, tudo seguia normal. No entanto, lá pelas duas da tarde, um nevoeiro assombroso tomou de assalto o horizonte oeste, feito um cortinado de fumaça de pneus. (A figura linguagem é posterior. Na época eu não conhecia pneus, muito menos sua fumaça).  Do alto das nuvens negras desciam luminescências, feito pernas de mistério.  Ao ver aquilo minha mãe persignou-se outra vez.  E aquele embrulho negro veio vindo, nos envolvendo, feito ameaça bíblica.

O dia virou noite no meio da tarde. Os sons da natureza cessaram em reverência ao instante. Um silêncio tão compacto nos envolveu que se podia escutar o zumbido dos próprios ouvidos e o tum-tum do coração fatigado.  Nas alturas, a galinha-galo conjurou, como nunca fizera antes. Na sequência do conjuro, um raio simultâneo ao relâmpago partiu a tarde em duas compotas. A paineira frondosa, aquela em que os anus-brancos cantavam, partiu ao meio, com o impacto do raio. Eu e minha mãe caímos de susto.  Mas logo levantamos, trêmulos, à procura de abrigo. 

Uma ventania feroz chegou trazendo a chuva horizontal e cortante. Nosso rancho de pau-a-pique estremeceu todo. Escondemos debaixo de um couro de vaca, no quarto. Pela fresta da sangria, vi que o rancho levantava a cobertura e tornava a voltar, freneticamente. Foi então que, orgulhoso, constatei que os amarrilhos de cipó que meu pai fazia nem a tempestade mais violenta era capaz de desfazer.  

Meu pai chegou mais tarde, sem o chapéu. E o pé já não doía. Dia seguinte soubemos que a Mata Grande fora destroçada e a casa do senhorio viera abaixo.  

( Publicada em O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013)     

Da pobreza calma à miséria turbulenta

A emigração em massa, o chamado êxodo, é um fato que sempre consternou. Um dos livros mais comoventes da bíblia é o que narra a fuga dos hebreus do Egito e leva o nome de Êxodo. E Êxodo era também o nome dado pelos gregos ao ato final da tragédia. O clímax da peça e da dor. O Brasil promoveu um dos maiores êxodos da história da humanidade, uma tragédia que muita gente sofreu e ainda sofre, sem entender direito. Aceita como algo inevitável, sinal dos tempos. 

Até meados do último século, apenas 20% das pessoas moravam nos centros urbanos e 80% nas zonas rurais. Em pouco mais de 30 anos, ou seja, numa só geração, a situação se inverteu por completo. Sem aviso prévio nem preparação alguma, movidas apenas pelo desconforto impingido pelo governo, milhões de pessoas trocaram a paisagem idílica e morosa do campo, pelo burburinho violento nas periferias das cidades. Trocaram a pobreza calma pela atribulação da miséria. 

O Camboja, país asiático, experimentou uma situação inversa. O regime do Khemer Vermelho, promovido pelo ditador Pol Pot, nos anos 70 do século passado, promoveu o êxodo da cidade para o campo, supostamente em busca de uma vida simples e essencial. Os resistentes às mudanças, os ditos burgueses, foram eliminados, sem dó nem piedade. Estima-se que o processo produziu diretamente dois milhões de vítimas fatais. Um quarto da população. Ou seja, quem resistiu foi sumariamente executado.  Tanta brutalidade nos assusta e condói. 

Mas se olharmos bem, veremos que o êxodo brasuca não foi menos cruel. É claro que não havia milícias rastreando os camponeses para eliminar os resistentes com tiro na nuca. A malvadeza por cá não é dada a extremismos. Rejeitamos as execuções violentas. Preferimos a judiação. A tortura, lenta, infinita e sem rosto.

Até então, por aqui, proprietários de terras e trabalhadores rurais levavam a vida, até certo ponto, com harmonia. Fazendeiros cediam terras para a moradia e o cultivo. Pelo que os trabalhadores entregavam uma parcela da produção ao senhorio. Não era barato, isso não era. Mas era bem menos caro do que paga hoje qualquer cidadão para usar o Brasil como pátria e aqui cavar o seu ganha-pão.

Diferentemente da China que constrói bairros e mais bairros com toda estrutura para receber as pessoas egressas do campo e ainda preparam os campesinos para a vida que vão levar, o Brasil simplesmente jogou a discórdia no campo.  Que nem um cara sacana que espalha pó-de-mico na festa. O pó-de-mico do governo foi a legislação que de repente deu aos braçais a perspectiva de tomar as terras a título de indenização e os fazendeiros, pelo assombro da ruína, espalharam o pé com a moçada. A China usa o Brasil como modelo. Modelo a não ser seguido.

Me lembro  daquele dia fatídico em que o fazendeiro chegou lá em casa, com lágrima nos olhos, dizendo que gostava muito da gente, mas não dava mais. Tínhamos que cair fora. A leva de milhões de pessoas despreparadas formou essa monumental periferia das cidades brasileiras. Essa lavoura de criminalidades e rebanhos para o tráfego de drogas e outras mazelas. Os capitais nacional e internacional abriram novas frentes e espaços para o agronegócio.  Tudo bem que a gente não queria ser eternamente campesinos. Mas que o sistema podia ser menos bruto, ah, isso podia. 

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013).

Músculos e sensibilidade

Tenho a impressão de que o marketing com suas técnicas publicitárias é tão antigo quanto a civilização. Nossos ancestrais, ainda nas cavernas, exibiam suas habilidades de caçadores ante os contemporâneos de seu grupo e de grupos vizinhos já com o objetivo de fazer marketing pessoal. Os mais fortes e aptos no manejo de ossos e cacetes no abate de animais certamente eram os mais cobiçados pelas moças em idade núbil. 

É provável que os fracotes apelassem para a sensibilidade, realizando pinturas coloridas e gravações nos paredões de pedra. Outros exercitavam suas habilidades de contar histórias à beira do fogo, dando uma roupagem ilustrada e criativa a seus supostos feitos. Os bons pintores ou contadores de histórias talvez conseguissem até rivalizar em prestígio com os fortões e exímios caçadores, mas insensíveis para com as artes nascentes.

No entanto só bem mais tarde o marketing começou a ser sistematizado como técnica de criação de desejos e necessidades, bem como as formas de atender a essas demandas. Dizem que os fenícios foram os primeiros a organizarem uma metodologia para convencer os clientes potenciais de que seus produtos ofereciam o melhor custo/benefício. Cerca de 1.000 anos antes da era cristã, um fenício famoso, chamado Hiram, rei de Tiros, convenceu o reis de Israel, primeiro Davi e depois Salomão, de que seus produtos construtivos e mobiliários eram os melhores do mundo. Assim o rei marketeiro, que teve um reinado de décadas, conseguiu pegar por empreita as construções dos templos daqueles reis icônicos. Não só a parte de alvenaria, mas também todas as alfaias: estatuaria, móveis e decorações.

Nos dias de hoje, o marketing é uma ciência tão violenta que muitas vezes pensamos que somos nós que estamos fazendo a escolha de determinado produto ou serviço, mas na verdade é o produto ou o serviço que está nos escolhendo. As mensagens publicitárias entremeadas em todas as peças de mídia, com técnicas de neuromarketing e tudo o mais, são capazes de nos dominar a tal ponto de sofrermos alteração de gosto, temperamento e até de natureza, só para consumir determinados produtos que a indústria achou por bem manufaturar.  O marketing da informática, por exemplo, nos colocou a todos para correr a serviço das grandes corporações do Vale do Silício, de onde, dia após dia, são reveladas novas  e estonteantes fortunas.

Mas outro dia me aconteceu um lance que até agora não entendi direito se foi coincidência ou se o marketing já conseguiu invadir a intimidade de nossos sonhos enquanto dormimos. De madrugada sonhei que estava voando, com asas cômodas e bem ajustadas. Um voo gratificante e plácido, sobre paisagem deslumbrante, numa tarde fagueira de minha infância. O voo ainda em andamento,  acordei com o sinal sonoro do celular sinalizando a chegada uma mensagem de texto. Um pouco pesaroso pela interrupção do sonho tão bom, leio a mensagem: “Dica do dia: realize seu sonho de voar. Pratique um esporte de pura emoção. Venha voar com a gente.” Na sequência, os dados da empresa que prometia a concretização do sonho. Coincidência ou armação?  As coisas como andam, dá mesmo pra desconfiar.  

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em novembro de 2013)

O cerrado e a alquimia da chuva

Muita coisa que a gente pensa que mudou, na verdade não mudou nada. O que mudou foi apenas o diagnóstico.  O câncer, por exemplo. Se a gente não observar direito conclui que a doença se alastrou de uns tempos para cá. Que antigamente eram poucas as pessoas afetadas. Mas agora é difícil passar uma semana sem que a gente saiba de um amigo ou um parente diagnosticado com a tal moléstia.  Antes, o diagnóstico era sempre tardio e soava como sentença de morte. Hoje é apenas um aviso de que é preciso travar uma luta com todas as armas e forças para debelar o inimigo. 

Na realidade, o que mudou (para melhor) foi a forma de identificar e tratar o problema. Quando a gente pensava que a doença era menos, muita gente morria de nó nas tripas, de anemia radical, de caroço em algum lugar do corpo que não cedia às rezas da benzedeira nem aos  berros de “vade retro, satanás!” do espancador de demônios. As pessoas morriam de doenças misteriosas, talvez praga de padre ou de madrinha contrariada. No fundo eram de crescimento desordenado das células e suas ramas maléficas lançadas no organismo. Hoje são mais de uma centena de tipos catalogados dessa doença. Mas na verdade a incidência dela não aumentou. Apenas melhorou a forma de identificação. 

Mas há uma coisa que mudou de verdade. Não foi apenas o diagnóstico. Me refiro ao nosso sistema de chuvas. Na verdade o diagnóstico melhorou muito. Dificilmente uma previsão do CPTEC/IMPE acaba em furos.  Antigamente, previsão do tempo era mais na base da chutometria e da adivinhação do que mesmo do tratamento de dados científicos. As previsões eram tão erráticas que se costumava dizer: no tempo das águas, até previsão de sol é sinal de chuva.  

Mas o que mudou mesmo, pelo menos em minha modesta percepção, sem aferimento científico algum, é o jeito de como a chuva acontece agora em nossa região. Tenho a impressão de que no tempo de eu menino, as chuvas que nos regavam não dependiam de frentes frias vindas da Argentina, de deslocamento de massas de ar tropical importadas da Amazônia, de zona de convergência do Atlântico Sul, nem outros fatores engendrados fora do bioma cerrado. O cerrado em sua inteireza e eficiência dava conta, sozinho, da alquimia da chuva. 

Com vegetação rasteira, torta, cascuda, de raízes profundas, o cerrado dava conta de injetar a água da chuva nas esponjas da terra. Água que era distribuída com parcimônia farta pelas veias cristalinas que irrigavam os campos o ano inteiro. As raízes recobravam a umidade do chão, jogando pelas folhas o vapor no ar para a manufatura de novas nuvens, sem produtos importados. Chuva mansa, doméstica, fininha e prolongada. 30 dias ou mais sem interrupção. Chuva carinhosa, coada em névoa e som sem fúria que parecia impregnar na alma da gente um estado de sonho. Sonho bom feito colo de mãe. Era quando se comia milho cozido e batata assada nas brasas da lenha colhida na seca. Com o desmatamento as chuvas não respeitam a nossa índole. São ferozes, acidentes pluviométricos de elementos extraviados de regiões distantes. O desmatamento é o câncer do cerrado.    

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em novembro de 2013)
     

Um homem e duas mortes

Agora recente, no Irã, um sujeito chamado Alireza ( só  mesmo sendo Ali Reza,  reza braba, pelo milagre que aconteceu) foi condenado à morte por crime de tráfico de drogas. Julgado sumariamente, enforcado, no capricho, foi dado como morto, depois de 12 minutos pendurado no patíbulo. 

No dia seguinte , quando a família enlutada foi buscar o corpo no Instituto Médico Legal de lá, o atendente, não sem algum assombro, percebeu que havia umas bolinhas de ar no plástico que o envolvia. Ninguém poderia acreditar: mas o que era para ser morto estava vivo. 

Os familiares do morto, agora vivo, rejubilaram-se em reaver o ente querido. Renovaram as esperanças de que sua pena pudesse ser perdoada, pois já existem precedentes, raros, mas existem, em que condenados a morte por apedrejamento sobrevivem ao suplício e recebem o direito de viver o resto da vida. 

Mal humorado, o governo teocrático iraniano já determinou: assim que o condenado convalescer da primeira execução será re-executado. Pensei, se é pra matar, porque não mata o sujeito doente mesmo? Seria poupado da TPR (tensão pré-re-enforcamento). Depois, pensando melhor, eles estão certos. 

O camarada vai ser morto para cumprir um objetivo: dar exemplos à sociedade, e assim evitar que outros venham a delinquir. Nós também, quando matamos com objetivo, evitamos matar um indivíduo doente. Não me refiro à pena de morte, porque nossa lei não contempla (a não ser nos casos de abate de aeronaves ou inimigos de guerra em combate). Mas quando vamos matar um animal com o fim de lhe consumir as carnes, (um porco, uma galinha, uma vaca), se estiver adoentado a gente trata dele até ficar bom. Depois, crau! Não sei se as duas situações têm alguma correlação. Mas foi assim que pensei. Também devem ser diferentes os pensamentos básicos de um muçulmano comparados com os de um cristão,  de um budista ou mesmo de um candomblé.

De qualquer modo, assim que convalescer, Alireza será pendurado de novo. E desta vez com mais cuidado, senão desmoraliza o regime. Os chineses, que não têm religião (só uns poucos são budistas), são mais práticos nesse quesito: nada de apedrejamento, nada de enforcamento. É tiro na nuca, e ponto final. 

Já imaginou se esse entrevero tivesse ocorrido em Mundocaia?  Não sei se vocês sabem, mas lá também tem pena de morte. Não é oficial, mas tem.  Se fosse em Mundocaia, esse Alireza diria que na hora de puxarem a corda ele gritou o nome de um beato qualquer.  Assim a Igreja teria uma prova inconteste de um milagre operado pelo dito beato. E agora o Vaticano pode promovê-lo a santo. Mundocaia ergueria um templo no local do enforcamento frustrado, em honra do santo novo e a cidade viraria um destino de peregrinações. Os comerciantes de lá dariam graças a Deus, porque poderiam explorar os turistas religiosos em buscas de novos milagres. Da mesma espécie do que salvou Alireza do suplício de enforcamento.
Azar de Alireza! Quem mandou não nascer  longe de Mundocaia?!  

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em novembro de 2013)