O útero infértil de Nefertiti

Era Ana Lima de Sousa e Silva, no registro de nascimento. No entanto, chamada pelos colegas de Titi, de Nefertiti. O apodo elogioso, e não raro irônico, fora adquirido em plena juventude, assim que entrou para os quadros da multinacional, pela sua beleza insolente, pelos traços longilíneos, que logo remetiam à badalada rainha da antiguidade egípcia. Quando a explosão de beleza foi se arrefecendo, retiraram o Nefer e restou apenas o Titi.

Durante seu reinado, Nefertiti soube retirar proveito de suas vantagens competitivas. Foi promovida para cargos decorativos e bem remunerados. Sempre esteve próxima dos diretores mais influentes e cobiçados. Era escalada para seminários em resorts praianos e viagens internacionais. E assim participava dos projetos mais charmosos e visíveis da empresa.

Corria pelos corredores que ela distribuía agrados íntimos a seus assessorados. Certa vez teria esnobado um diretor velhote que lhe propôs abandonar a família e convolar núpcias com ela. O fato é que ela se envolvia, mas com o compromisso consigo mesma de nunca se apegar. Afinal, o seu charme, o seu dengo, sua beleza e disponibilidade eram sua arma secreta de galgar os cargos, de receber os altos salários, de estar junto de pessoas importantes. Locais esses que dificilmente alguma outra mulher pudesse ocupar apenas pelos méritos trabalhistas.

Para usar uma parábola que vem do Egito, os anos de vacas gordas passaram. A crise internacional atingiu a empresa na mesma ocasião em que Ana Lima perdia o vigor da beleza física. Foi quando perdeu também parte do apelido e ficou só o Titi. Ainda era uma mulher apresentável em suas quase cinco décadas bem vividas, a ponto de o pessoal chamá-las, às amoitas, de Sucata de Lamborghini. Já não possuía vigor suficiente para mantê-la nas posições de bons ganhos com trabalhos prazerosos.

Os tempos eram outros e Titi fora rebaixada a serviços insignificantes, onde não se exigia boa aparência com juventude, nem apuro técnico. Que, aliás, por razões óbvias, ela nunca chegou a ser uma grande técnica durante toda a sua carreira.

Quando caiu na real, na vida desprovida de glamour e privilégios, Titi se lembrou que atrás de seus instrumentos recreativos existia um útero, um saco de maternidade, que nunca fora usado. Foi ao médico para ver se ainda era possível gerar um filho e religar a vida num sentido mais consistente.

Em vão. O médico lhe disse que seus órgãos reprodutivos já estavam vencidos  e necrosados e que não havia como restaurá-los. Uma depressão terrível chegou em meio a um turbilhão de mágoas e pensamentos ruins, que parecia lhe ter tomado de assalto, mas que na realidade tinha juntado aos merejos, de gota em gota, no transcorrer da vida.

Pensou em adotar uma criança. Esteve até numa casa de adoção. Mas a psicóloga contra-recomendou, sob a alegação de que seu equilíbrio mental estaria muito frágil para educar uma criança.

Ontem, andando pelo bairro, avistei de longe e depois passei por ela. Nefertiti, aposentada, cabelos amarfanhados, cara de insana, quase irreconhecível. Já nem era uma sucata de Lamborghini. Empurrava um carrinho de criança. E nele repousava, como se fosse um bebê, um resignado cãozinho Shar Pei.       

    

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