Sequestros de R$ 1,99

O mercado vive numa ferveção medonha. O que é novidade hoje, amanhã é só uma velharia. Quando não é um produto novo matando o produto velho, é o mesmo produto com detalhes novos, deixando o que até bem recente era novidade com cara de bucha usada.

E à medida que os produtos vão se disseminando, o efeito escala vai derrubando o preço. Me lembro que há pouco mais de dez anos, quando surgiu essa televisão magrinha, menosprezando aquelas de caixotão, a TV nova era do preço de um carro de luxo. Agora se vê televisão de plasma, de LCD, de LED, da espessura de uma folha de papelão, com recursos de HD, 3D, e tantas coisas mais, a preço de banana madura além da conta.

Nos anos 80 do século passado, quando surgiu o videocassete, surgiram também os consórcios em 36 meses para se adquiri-lo.  Hoje, com o valor de uma parcela daquele consórcio dá pra comprar um tocador de vídeo, com recursos infinitamente superiores.

E os primeiros celulares então? Eram caros, enormes e no máximo faziam ligações. Para carregá-los era preciso de um coldre, ou uma capanga. Eram chamados de Tijorola (tijolo da Motorola) ou de Bateau Mouche, numa referência jocosa aos famosos barcos de turismos que trafegam pelo Rio Sena em Paris. Só da classe média acima podia ter um. Agora!...

O crime, um produto bastante presente hoje em dia, parece que segue a mesma trilha dos eletrônicos. Há alguns anos, para se mandar apagar alguém (o famoso crime de pistolagem), só mesmo sendo muito rico. 

Era preciso vender gado ou fazenda, ou mesmo dispor das ações do Banco do Brasil para pagar o pistoleiro que, cheio de pose e exigências, vinha de muito longe para eliminar o desafeto. O matador recebia meia fortuna na contratação e meia fortuna quando trouxesse a orelha do eliminado.  Hoje você dá um par de tênis, ou um celular marca roscó, normalmente para um menor de idade com aparência de doidinho e no outro dia já se pode ver a cara do morto no jornal ou na televisão.  A foto na mídia é a comprovação, a velha orelha do defunto.

E o sequestro? Quando surgiu por aqui, era atitude de revoltoso político, por alguma causa ideológica. Ao sair desse terreno sagrado e vir para o mundo paisano, só milionário era potencialmente sequestrável. Uma quadrilha sofisticada catava um ricaço e a negociação se arrastava por meses, até anos, para se concluir.  Isso depois da família receber vários pedaços da vítima pelo correio. 

Era preciso envolver até o Banco Central para juntar tanto dinheiro vivo para saldar as exigências, se o sequestrado não quisesse morrer. Agora, não. Além do sequestro-relâmpago, que se paga com os caraminguás retirados com o cartão no caixa eletrônico, já há outros sequestros  mais banais ainda. Outro dia, a filha adolescente de um pedreiro que já trabalhou pra mim foi sequestrada. O sequestrador pediu R$ 199,00. Quando a polícia botou a mão no mala, adivinha quem era: O namoradinho da moça, mancomunado com ela. Apenas queriam levantar uma grana para a balada de sábado à noite.    
     

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