Espertezas da vida



A vida talvez seja a coisa mais obstinada que existe.  Dizem que a água, mesmo sem oferecer resistência, é capaz de superar (ou contornar) todos os obstáculos e atingir seus objetivos. Ainda é capaz de mudar de estado conforme a necessidade. Em seus processos de sobrevivência, pelo menos até agora, a água tem sabido se renovar, para continuar límpida e cristalina para cumprir sua função na Terra. Mesmo assim acho que a vida ainda é mais tinhosa do que a água.

A vida organiza a matéria em seres e os distribui em reinos, ramos, famílias, espécies, indivíduos etc. com o fim único de se propagar e se estender indefinidamente no espaço e no tempo. Seus processos de organização e sobrevivência são dos mais curiosos. A vida, como princípio, é uma só em toda parte. É um ser amplo, uma grande teia por sobre e por entre todas as coisas. A vida que pulsa em mim é a mesma que pulsa na ameba, na lesma e na barata. Por mais que eu ache esses seres repulsivos e insidiosos.

Foi a vida, em sua indústria, que evoluiu de seres monocelulares para seres humanos de alta complexidade, com potencial para reconhecer-se a si mesmo e conjecturar a existência de Deus. A vida física sonhou a metafísica divina.

Mas não é por esse caminho que desejo trilhar agora. Desejo apenas comentar, en passant, alguns processos de arrumação da vida. A vida é apegada a si mesma. Portanto, ela ama muito mais a espécie do que ao indivíduo. Talvez seja por isso que alguns fatos ocorrem em nossa sociedade hoje em dia.

Pego um exemplo: Em princípio, não perece razoável que os jovens sejam tão imprudentes como são. Por uma fúria descontrolada e aparentemente sem causa, cada vez mais, jovens pegam o carro dos pais e saem pelas ruas e rodovias fazendo loucuras. Pode parecer uma lucubração apartada de fundamento o que vou dizer, mas penso que essa atitude faz parte de uma estratégia sutil da vida. Nessas trapalhadas muitos jovens morrem e matam. E suas vítimas preferenciais são os velhinhos que não dão conta de fugir dos foguetes desgovernados. Nessa atitude de morrer e matar os mais velhos, os jovens cumprem uma moderna estratégia da vida.

Ocorre que o mundo já está completamente lotado pela espécie humana. Ao se livrar de parte da juventude, estaria inibindo um crescimento que em muito breve poderia inviabilizar a espécie no planeta Terra. O jovem que morre, é menos um para demandar por vaga no mercado de trabalho já tão saturado. É menos um para atuar na procriação de novos seres. Na outra ponta, cada velhinho morto, é menos um para pressionar a já combalida (im)previdência social.  E assim, passando a foice no indivíduo, a vida se perpetua na espécie.

A vida, como Deus, tem seus desígnios insondáveis. Mas de uma coisa podemos ter certeza: ambos (Vida e Deus) são desprovidos de piedade.


 
(Publicada no Jornal O Popular - Goiânia, Goiás em  02 de julho de 2012) 
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