Velhice pós-moderna

 

A velhice é uma moléstia que nos espreita desde o nascimento e contém as três piores características de qualquer doença: inevitável, incurável e fatal. Por mais que um jovem imagine que nunca será velho (isso fica patente pelo menosprezo que os garotos devotam aos matusaléns), a velhice será inevitável, a não ser que se morra jovem. Mas nunca vi pessoa alguma em sã consciência que use a morte prematura como forma de prevenção à velhice.

Uma vez instalada, a velhice se torna incurável. Seu portador pode até remediar, ou retardar alguns aspectos relativos à aparência, do tipo judiar do corpo com exercícios físicos, cirurgia plástica, enxerto de cabelos, botox e tal. Mas são providências meramente paliativas e cosméticas. No fundo das vísceras, nas entranhas cronométricas, a velhice continuará a se desenvolver dia e noite, implacavelmente, sem descanso nem marcha à ré. Nessa balada, a velhice só interrompe sua trajetória maléfica diante do atestado de óbito de sua vítima, o seu objetivo fatal.

Em comparação a tempos passados,  ser velho no século 21 tem melhoras e piorias. Os velhos atuais têm o Estatuto do Idoso que lhes garante aposentadoria, preferência nas filas, vaga no estacionamento, locais de entretenimento e convivência, atendimento na saúde pública (ainda que precária). Esse conjunto de coisas alongou a expectativa de vida consideravelmente.

No entanto, apesar do Estatuto e ao contrário do que parece à primeira vista, velho perdeu a importância e o respeito.  Antigamente, a experiência da vida dava ao idoso uma espécie de status de “profeta da chuva”.  Era o centro de referência da família, da comunidade. Se alguém tinha uma dúvida sobre o funcionamento de alguma coisa, como os dentes da moega do engenho, os raios da roda da carroça, ou os cocões em relação aos chumaços do carro de bois, perguntava ao velho que ele sabia. Qual a lua propícia para tirar madeira, plantar lavoura, vender o gado, entabular um romance, era só perguntar ao velho que ele tinha a resposta na ponta da língua.

Agora não. Todo idoso é um leso, um equivocado. Qual investidor vai procurar o conselho de anciões para saber se compra derivativos da dívida imobiliária americana?  Se é hora de exportar commodities para  a China ou manufatura para a Bolívia? Quem vai perguntar a um velho qual o local bacana para sair com uma periguete ou o uso correto da pílula do dia seguinte? Quem vai consultar o ancião da comunidade para saber se o melhor videogame é Atari, PlaySatation ou Xbox?  Ou mesmo tirar suas dúvidas sobre a nova versão do Windows ou do Facebook?

Velho perdeu a utilidade dentro da nova ordem da pós-modernidade. Suas experiências e opiniões são peças de museu sem museus para serem guardadas. Velho só é procurado agora para se endividar com empréstimos consignados, e repassar a grana pros filhos ou netos torrar com o supérfluo. A vida esticada na velhice poderia muito bem ser um bônus, um prêmio para quem já deu tantas contribuições. Mas está se tornando cada vez mais uma roubada. Talvez tenha sido captando esse estado de coisas que o ministro das finanças do Japão sugeriu que os velhos procurem um jeito de morrer logo.  

(Publicada no Jornal O Popular - Goiânia - em fevereiro de 2013)

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