Animal

Às vezes penso uma nação como algo semelhante a um animal, a um ente vivo, a uma unidade biológica. Unidade biológica como cada ser standard, como se apresenta ao mundo real e recebe um nome. É capaz de manifestar suas vontades ou mesmo seus instintos. Assim, eu, você, um boi, uma inhuma, uma barata, uma abelha, um cupim, cada qual é uma unidade biológica. A bactéria que habita o estômago do cupim e ajuda a fazer a digestão da celulose também é uma unidade biológica.

Já que estamos falando em cupim, tomemo-lo como parâmetro. Comecemos não pelo abrigo de toda a coletividade, mas por um inseto apenas. Certamente ele é formado de milhões de outros seres menores que num momento remoto da evolução se constituíam em seres autônomos. Com o tempo aqueles micro-animais foram se aglomerando, cada um cumprindo sua função primitiva, mas agora de maneira integrada, sinergética e sistêmica. Essas três palavras podem ser traduzidas por conveniência: menor esforço e maior ganho para os envolvidos.

Pois bem, se cada cupim é formado por milhões de pequenos seres, um cupinzeiro é formado por milhares de cupins, cada grupo com uma função muito bem definida, segundo sua vocação. Alguns trabalham na moldagem da argila, formando um dos mais complexos e eficientes abrigos sobre a Terra, capaz de manter a salubridade ambiental diante das intempéries. Por meio de canais, ventilações, terraços, subsolos, vedações e design sofisticado, um cupinzeiro resiste à inundação, ao fogo, ao gelo e até ao terremoto. Mas só os construtores não bastam. Há os seguranças para afugentar os invasores, os guardiões que avisam os seguranças. Há a rainha que bota ovos, mas para serem fecundos será exigida a participação dos reprodutores. Tem os que saem a campo em busca de alimentos e assim por diante.

Na prática, um cupinzeiro nunca é igual a outro. Cada qual tem um jeitão, um estilo, suas especificidades. Uns são visivelmente bem acabados, grandes e limpos. Outros são malfeitos, desmazelados e decadentes.  Isso ocorre porque cada coletivo tem uma vontade própria, uma determinação própria que é o mínimo múltiplo comum a todas as vontades individuais, no caso, de todos os instintos individuais.

Fico pensando as nações humanas como um animal ou cupinzeiros. Os Estados Unidos, a França, o Haiti, o Turcomenistão, o Brasil. Cada um é um cupinzeiro e se molda segundo a vontade de seus habitantes. Cada país é um grande animal cuja vontade é o resultante do mínimo múltiplo comum das vontades individuais. Isso faz a diferença de cada nação. Os americanos e os chineses, por exemplo, pelos menos nas gerações recentes, têm se apresentado como nações ambiciosas, com vocação para potência, erguendo suas torres que possam ser vistas de qualquer parte do globo.

Já o Brasil tinha tudo para ser altaneiro, mas é borocochô.  A súmula das vontades individuais dá nisso: um animal frouxo, um cupim desmazelado. Onde nada funciona direito, onde nenhum recurso é suficiente para alavancar o progresso. Carnaval, samba e futebol nos bastam. Um cupim e seu pibinho. 

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia, Goiás em 30 de janeiro de 2013)

  


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