Músculos e sensibilidade

Tenho a impressão de que o marketing com suas técnicas publicitárias é tão antigo quanto a civilização. Nossos ancestrais, ainda nas cavernas, exibiam suas habilidades de caçadores ante os contemporâneos de seu grupo e de grupos vizinhos já com o objetivo de fazer marketing pessoal. Os mais fortes e aptos no manejo de ossos e cacetes no abate de animais certamente eram os mais cobiçados pelas moças em idade núbil. 

É provável que os fracotes apelassem para a sensibilidade, realizando pinturas coloridas e gravações nos paredões de pedra. Outros exercitavam suas habilidades de contar histórias à beira do fogo, dando uma roupagem ilustrada e criativa a seus supostos feitos. Os bons pintores ou contadores de histórias talvez conseguissem até rivalizar em prestígio com os fortões e exímios caçadores, mas insensíveis para com as artes nascentes.

No entanto só bem mais tarde o marketing começou a ser sistematizado como técnica de criação de desejos e necessidades, bem como as formas de atender a essas demandas. Dizem que os fenícios foram os primeiros a organizarem uma metodologia para convencer os clientes potenciais de que seus produtos ofereciam o melhor custo/benefício. Cerca de 1.000 anos antes da era cristã, um fenício famoso, chamado Hiram, rei de Tiros, convenceu o reis de Israel, primeiro Davi e depois Salomão, de que seus produtos construtivos e mobiliários eram os melhores do mundo. Assim o rei marketeiro, que teve um reinado de décadas, conseguiu pegar por empreita as construções dos templos daqueles reis icônicos. Não só a parte de alvenaria, mas também todas as alfaias: estatuaria, móveis e decorações.

Nos dias de hoje, o marketing é uma ciência tão violenta que muitas vezes pensamos que somos nós que estamos fazendo a escolha de determinado produto ou serviço, mas na verdade é o produto ou o serviço que está nos escolhendo. As mensagens publicitárias entremeadas em todas as peças de mídia, com técnicas de neuromarketing e tudo o mais, são capazes de nos dominar a tal ponto de sofrermos alteração de gosto, temperamento e até de natureza, só para consumir determinados produtos que a indústria achou por bem manufaturar.  O marketing da informática, por exemplo, nos colocou a todos para correr a serviço das grandes corporações do Vale do Silício, de onde, dia após dia, são reveladas novas  e estonteantes fortunas.

Mas outro dia me aconteceu um lance que até agora não entendi direito se foi coincidência ou se o marketing já conseguiu invadir a intimidade de nossos sonhos enquanto dormimos. De madrugada sonhei que estava voando, com asas cômodas e bem ajustadas. Um voo gratificante e plácido, sobre paisagem deslumbrante, numa tarde fagueira de minha infância. O voo ainda em andamento,  acordei com o sinal sonoro do celular sinalizando a chegada uma mensagem de texto. Um pouco pesaroso pela interrupção do sonho tão bom, leio a mensagem: “Dica do dia: realize seu sonho de voar. Pratique um esporte de pura emoção. Venha voar com a gente.” Na sequência, os dados da empresa que prometia a concretização do sonho. Coincidência ou armação?  As coisas como andam, dá mesmo pra desconfiar.  

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em novembro de 2013)

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