Da pobreza calma à miséria turbulenta

A emigração em massa, o chamado êxodo, é um fato que sempre consternou. Um dos livros mais comoventes da bíblia é o que narra a fuga dos hebreus do Egito e leva o nome de Êxodo. E Êxodo era também o nome dado pelos gregos ao ato final da tragédia. O clímax da peça e da dor. O Brasil promoveu um dos maiores êxodos da história da humanidade, uma tragédia que muita gente sofreu e ainda sofre, sem entender direito. Aceita como algo inevitável, sinal dos tempos. 

Até meados do último século, apenas 20% das pessoas moravam nos centros urbanos e 80% nas zonas rurais. Em pouco mais de 30 anos, ou seja, numa só geração, a situação se inverteu por completo. Sem aviso prévio nem preparação alguma, movidas apenas pelo desconforto impingido pelo governo, milhões de pessoas trocaram a paisagem idílica e morosa do campo, pelo burburinho violento nas periferias das cidades. Trocaram a pobreza calma pela atribulação da miséria. 

O Camboja, país asiático, experimentou uma situação inversa. O regime do Khemer Vermelho, promovido pelo ditador Pol Pot, nos anos 70 do século passado, promoveu o êxodo da cidade para o campo, supostamente em busca de uma vida simples e essencial. Os resistentes às mudanças, os ditos burgueses, foram eliminados, sem dó nem piedade. Estima-se que o processo produziu diretamente dois milhões de vítimas fatais. Um quarto da população. Ou seja, quem resistiu foi sumariamente executado.  Tanta brutalidade nos assusta e condói. 

Mas se olharmos bem, veremos que o êxodo brasuca não foi menos cruel. É claro que não havia milícias rastreando os camponeses para eliminar os resistentes com tiro na nuca. A malvadeza por cá não é dada a extremismos. Rejeitamos as execuções violentas. Preferimos a judiação. A tortura, lenta, infinita e sem rosto.

Até então, por aqui, proprietários de terras e trabalhadores rurais levavam a vida, até certo ponto, com harmonia. Fazendeiros cediam terras para a moradia e o cultivo. Pelo que os trabalhadores entregavam uma parcela da produção ao senhorio. Não era barato, isso não era. Mas era bem menos caro do que paga hoje qualquer cidadão para usar o Brasil como pátria e aqui cavar o seu ganha-pão.

Diferentemente da China que constrói bairros e mais bairros com toda estrutura para receber as pessoas egressas do campo e ainda preparam os campesinos para a vida que vão levar, o Brasil simplesmente jogou a discórdia no campo.  Que nem um cara sacana que espalha pó-de-mico na festa. O pó-de-mico do governo foi a legislação que de repente deu aos braçais a perspectiva de tomar as terras a título de indenização e os fazendeiros, pelo assombro da ruína, espalharam o pé com a moçada. A China usa o Brasil como modelo. Modelo a não ser seguido.

Me lembro  daquele dia fatídico em que o fazendeiro chegou lá em casa, com lágrima nos olhos, dizendo que gostava muito da gente, mas não dava mais. Tínhamos que cair fora. A leva de milhões de pessoas despreparadas formou essa monumental periferia das cidades brasileiras. Essa lavoura de criminalidades e rebanhos para o tráfego de drogas e outras mazelas. Os capitais nacional e internacional abriram novas frentes e espaços para o agronegócio.  Tudo bem que a gente não queria ser eternamente campesinos. Mas que o sistema podia ser menos bruto, ah, isso podia. 

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013).

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