A era dos pós

Não me refiro aos pós da queima dos combustíveis fósseis, da queima das matas, nem da poeira que sobe pela ação das máquinas na remoção de terra ao redor do mundo, ou aos cones de poeira sobre os chapadões arrasados, no mês de agosto. Não me refiro aos pós da queima dos canaviais, das matas virgens, dos cerrados de reserva (das poucas que ainda há), ou das pirambeiras de luxo de Los Angeles. Nem aos pós pré-universais que aturam (ou atuam) na formação dos imensos corpos celestes. Nem ao pó simbólico que teria nos dado consistência física no primeiro momento da criação, ao qual haveremos de voltar um dia. Nem ainda me refiro aos pós alucinógenos que afetam diretamente a sanidade mental de boa parte da população e acabam por atribular a sociedade como um todo, seja pela perdição dos viciados,  seja pela violência que os pós impõem aos lares, às ruas, à população, enfim.   

Os pós a que me refiro são aos diversos empregos do prefixo latino  “pós-“  que segundo  o Dicionário Houaiss, aberto na tela à minha frente, quer dizer “depois de (no espaço e no tempo)” que entra na formação de palavras pretensamente cultas como posfácio, pós-moderno, pós-guerra e assim por diante.  É a estes que me refiro. Pois muito me admira e até me espanta como este prefixozinho tão velho tem ganhado tanto sentido para definir a falta de sentidos que desorienta nossos dias. 

Há muito se diz que vivemos um período da pós-modernidade em que, segundo a definição de Karl Marx adotada por Marshall Berman para definir o nosso tempo, “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Esta é a sensação que temos. Nada é perene, nada chega a concluir, nada continua, a luta é vã, nossas conquistas são vãs, nossas vitórias são pífias, os sonhos não têm razão de ser, porque nossas referências e valores se sublimam. Não no sentido de se tornarem sublimes, grandiosos, perfeitos. Mas no sentido de passar do sólido (palpável), para o gasoso (volátil).  E acabar em anda, no vazio de nossas existências desassistidas de propósitos. 

Estamos no período da pós-história, onde tudo se embaralha e o que é já era e o que vai ser já foi ou nunca será. Na área da produção já estamos no pós-industrial, onde a mecânica é substituída pela automação, com enormes conseqüências no trabalho, na política, na economia e na cultura. Estamos na era pós-literária, onde o conhecimento não é mais repassado por leitura racional, mas por uma espécie de osmose emocional. Estou esperando abrir um canal de USB na minha cabeça para receber informações de roldão e aplacar minha curiosidade mórbida. 

Na área da transcendência vivemos a era da pós-religião, em que Deus é vendido como uma mercadoria tosca e banal, nas bodegas de esquina. Na política estamos na era do pós-poder, em que as antigas instituições da democracia representativa se diluem e os governantes eleitos não têm mais legitimidade nem ascendência sobre os governados. Quer para atender-lhes as necessidades, quer para coibir seus abusos. É o que estamos assistindo nas cidades e nos campos de todo o mundo. Já se fala até num período pós-humano em que o ser humano como conhecemos dá lugar a um ser de alto desenvolvimento tecnológico, mas um ser bárbaro em termos culturais. Como se diz na periferia global: é nós. Ou melhor: é pós.   

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em junho de 2014).

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