Gambá digital

Viver numa sociedade pacífica ou pelo menos onde se possa afastar os inimigos é um sonho que persegue a humanidade desde sempre. Ao longo da história o homem tem construído cidades muradas, fortificações, casamatas,  pontes elevadiças sobre fossos, escoltas, exércitos. Tem inventado armas pessoais, escudos, roupas encouraçadas como as armaduras medievais. Modernamente, além do retorno dos bairros murados, veem-se muitas casas com câmeras, alarmes, cercas elétricas e carros à prova de bala. Já andar armado no Brasil é só pra quem  é do ramo: a polícia e a bandidagem. 

A preocupação em não ser maltratado pelos inimigos saiu da esfera laica e adentrou o mundo transcende, por meio das religiões, rituais e superstições. Veja este trecho da Oração de São Jorge: “Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar”. 

Outro trecho emblemático desse desejo pode ser visto no Salmo 91: “Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal. Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor. Você não temerá o pavor da noite nem a flecha que voa de dia, nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia. Mil poderão cair à sua esquerda; dez mil, à sua direita, mas nada o atingirá.” 

Observando bem nas pajelanças, nas mandracas, nas rezas bravas, nas mandingas, nas benzeções, feitiçarias e sessões de candomblé, os termos são muito parecidos. A possibilidade de manter o corpo fechado e o inimigo fora de nossa aura é um sonho acalentado por todos os povos, em todos os tempos e lugares.

Talvez um modo de nos defender não fosse criar mecanismos de proteção e defesa. Mas combater o mal pela raiz, por meio da educação, da cultura e do processo civilizatório. Se pudéssemos atingir um grau de civilização tal que fosse apagado o troglodita que há em cada um de nós, convencido de que o bem faz bem a todos indistintamente, o problema estaria resolvido.

No entanto, cada vez mais isto se parece com utopia. O que vemos hoje é um avanço tecnológico sem precedentes em contraposição a uma barbárie crescente, a uma regressão cultural e civilizatória sem par, pelo menos depois da Idade Média.  Diante deste paradoxo, a solução continua sendo o velho modelo preconizado pelas rezas e superstições: fechar o corpo. 

Com o avanço tecnológico na velocidade que vai,  não está longe o dia em que possamos comprar, via online, uma armadura digital,  um elmo hi-tech, em forma de aura ou campo magnético, que possa nos proteger de tiros, bombas, facadas, choques, incêndios, pedradas, rasteiras, chaves de braço e tudo o mais. 

 Será a concretização do sonho dos devotos de São Jorge. Ou melhor, de todo ser humano em seu senso de autopreservação. Isto é, até que um hacker quebre a nossa senha, invada nossa fortaleza pessoal e nos tome tudo a golpes de pauladas.  Inclusive a vida. Como a um reles gambá no galinheiro da quinta.  


Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em maio de 2014.

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