Tão Segredo


Nunca vi alguém tão esquisito quanto o Gastão. Foi meu colega de classe em Mundocaia.  Parecia ser de família rica, por isso, diferente. Na verdade a família dele era pobre. E a gente é que era miserável. Não era dos melhores alunos, mas atento e cumpridor dos deveres. Mais que isso, parecia não ligar a nada que não estivesse relacionado às matérias do curso. Recebia muitos paparicos dos professores. Até teve um colega furioso, que quis lhe dar um pau, pelos elogios que recebia.

Era o bonitão para as meninas.  Pelo menos, o menos feio da escola. Magro, mas não muito, olhos cor de melado, dentes claros e cabelo bom.  Parecia cortês com todos, mas no fundo o que ele era mesmo era indiferente. E pela indiferença passava por corajoso. Não manifestava medo de ninguém, embora não fosse de topar brigas. Era como se os cães latissem enquanto a carruagem passava. Como ele vivia rodeado pelas meninas, a gente queria saber o que elas diziam, se falavam da gente e tal. Ele não abria o bico. Daí foi que Gastão Silva Rosa virou o Tão Segredo.

Quando chegou o reboliço cultural nos anos 70, Tão não se tocou. A gente começou a deixar o cabelo crescer, a usar calça boca de sino, umas camisas de colarinhos amalucados, a falar um palavreado cheio de gírias que assustava os mais velhos e eles diziam que nossa geração estava podre e completamente perdida. Mas o Tão Segredo não se tocou. Continuou com suas roupas convencionais e o corte de cabelo à escovinha.  Os mais velhos diziam que aquele sim, é que era um rapaz de bons preceitos  e que toda mãe gostaria de ter como genro.

Me lembro que no dia em que o antenado Thiorai nos levou para ouvir os Beatles pela primeira vez , a turma arrastou o Tão, que morava perto do muquifo do Thiorai para se juntar a nós. Ele foi com sua alegriazinha morna, mais para não desagradar do que mesmo por entusiasmo. À medida que a gente ia descobrindo as novas sonoridades, que a cachaça com coca-cola ia turbinando o espírito, a gente ia ficando maluco, deslumbrado, sentindo no ar o cheiro de uma estação nova no ar, de um tempo inédito que estava chegando, rompendo a fumaceira de agosto e da geração arcaica de nossos pais. O encantamento foi crescendo como metástases, a música nos deixando cada vez mais suspensos no ar.  Ouvíamos Here comes de sun, como se possuídos por mil demônios, como se de fato estivesse chegando um novo céu e um novo sol, sobre a mesma terra. Olhei para o Tão e ele continuava sem expressão, até meio que bocejando.

Da turma ele foi o primeiro a arrumar emprego decente; foi trabalhar nos correios. Funcionário exemplar, deu duro por mais de 40 anos sem faltar um dia sequer.  Aposentou ano passado. Sofreu um acidente de carro que levou sua mulher e ele sobreviveu após um mês na UTI, por um trauma craniano.  Agora seu humor mudou completamente: alegre brincalhão, farrista, ao contrário de nós outros já capengas e pacatos.  Por último cravou pircing num mamilo, nas orelhas e na língua, que o deixou com a fala soprada. Tatuou um dragão nas costas e costuma se exibir correndo sem camisa no Parque da Guariba.  Assanhado como só, não tem assunto que não sejam baladas, bailes funks, cachorras e piriguetes.

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em março de 2013).


Reações:

1 comentários:

  1. Bravo, Mestre Edival!
    Apenas duas palavrinhas pra dizer de mais esta sua maravilhosa crônica: título belamente ambíguo em um texto nem um pouco equivocado... Leitura saborosa! Parabéns!

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