Pastel de melancia



Alimentamos a superstição moderna de que possamos controlar nossa vida, como um mecanismo de operação exata, ainda que cantarolemos: deixa a vida me levar, oi leva eu. Talvez num saudoso resquício do período medieval, quando tudo acontecia por desígnios mágicos. Mas as pessoas ditas assertivas acreditam que podem, sim, planejar o próprio destino, ao longo do dia, da semana, do mês, do ano, de décadas, enfim, ao longo da vida inteira. Que podem traçar objetivos com cronograma de acontecimentos iniciais, intermediários e finais. E que os finais acabam sendo os iniciais de um novo ciclo e a vida soa assim como um empreendimento formidável em que para dar certo depende apenas de nossa dedicação, de nossa força de vontade de lutar e conseguir sempre o que almejamos. O talento individual teria a função de abolir as incertezas e reduzir o risco de fracasso próximo a zero.

Não há nada mais enganoso do que essa pretensão que roça as raias da soberba. O máximo que conseguimos fazer de efetivo é nos preparar melhor para as peças que a vida nos prega. O índice de controle que temos sobre o destino é extremamente baixo. Mal conseguimos controlar nossa agenda, embora sempre dispostos a apresentar boas desculpas para justificar os imprevistos.

Somos seres circunscritos a um quadro de condições normais de temperatura e pressão (aquele CNTP do tempo colegial).  Imaginemos um mosquito no interior de um trem-bala, a trezentos km por hora. Apesar dessa velocidade do trem em relação ao mundo externo, o mosquito tem a sensação que tudo está em repouso. Assim pode sair do fundo do vagão e ir para frente num vôo de 10 km por hora, ou fazer evoluções sobre as cabeças dos passageiros, como lhe der na telha, sem qualquer interferência do mundo exterior. É o seu quadro de CNTP. Um mosquito kantiano poderia alimentar a pretensão de exercer o pleno domínio de seu fadário.

No entanto, basta que um dos vidros se rompa ou que uma fresta se abra para que a turbulência e o caos que imperam lá fora invadam o vagão e estraçalhem por completo o planejamento do mosquito pretensioso. Sem contar a possibilidade de que qualquer dos passageiros poderia esmagá-lo num único e fatídico bater de palmas. 

A vida é muito mais feita de ânsias e acasos do que mesmo de certezas objetivas. Quantos elementos aleatórios não se aproximaram e se afastaram dos fatos que nos construíram.  Nós só somos o que somos, com este temperamento, com esta fleuma, porque num determinado momento o esperma de um pai e o óvulo de uma mãe se encontraram e se desenvolveram em condições propícias. Acaso fosse outro pai, outra mãe ou mesmo outro esperma dos milhões que o pai ejaculou, seríamos outro, com outro temperamento, com outro destino.  

Se Deus está na base de tudo e que opera na causa dos acontecimentos, Ele talvez o faça do jeito de uma criança a jogar elementos imponderáveis na lista de nosso cardápio. Feito meu netinho Arthur, de quase três anos, que, outro dia, Tânia e eu o levamos a uma pastelaria e lhe apresentamos as opções disponíveis: pastel de carne, de queijo, de frango, de frango com catupiry, de frango com guariroba, de frango, guariroba e pequi e tal. Ante tantas opções, ele disse simplesmente: vovó, adoro pastel de melancia!

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em 06 de abril de 2012)


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