O herói bizarro de Mundocaia

Zac era um sujeito, como no dizer do povo, sem valia. Nada a ver com a mais valia de Marx. O povo diz, ou melhor, dizia isso dele porque antes dos acontecimentos que vou narrar, ele nunca havia urdido alguma coisa que valesse à pena. Zac, o caçula de sete irmãos, a rapa do tacho, nasceu 7 anos depois do sexto. Surpresos, os pais pensavam que até fosse uma bênção, como a de Abraão e Sara, ter um filho depois de já tão velhos. Deram-lhe o nome de Isaac. Viram mais tarde que era o contrário: uma espécie de maldição. É que Zac sempre se mostrou inútil. Os irmãos estudaram, viraram médicos, advogados, administradores. Tem um que até ocupa cargo de chefia numa multinacional no exterior. Zac não estudou nem aprendeu a trabalhar. O negócio dele é ficar nos botequins, dia e noite; um “zumbi da mardita”.
  
Como é de família respeitável, certa vez juntou com uma moça de boa índole, que tentou colocá-lo na linha, com trabalho digno e horário de chegar em casa. Zac teve depressão. Tentou suicídio. Saltou de casa pro quintal de revólver em punho pra detonar a própria cabeça. Atirou pra cima, alvejou um galho seco do ingazeiro, que caiu de raspão em sua cabeça, provocando hemorragia. Correram com ele ao hospital, pensando que o projétil varara-lhe a cabeça. Foram mais motivos de desmoralização. Por fim a mulher cansou de suas aprontações e ele caiu de novo na pinga. 

Mas como os pais anteviram, Zac tinha mesmo um quê de abençoado. Havia em Mundocaia um arruaceiro emérito que metia medo em todo mundo: o Carlão Monteiro.  Pertencente à oligarquia mais poderosa da região, esse sujeito vivia para infernizar a vida dos outros. Confiante no seu poder político, econômico e familiar, humilhou juízes, delegados, promotores e até o vigário. Sem contar as pessoas simples. Toda noite ele saia pra rua e aprontava das suas. Na ausência de um desafeto importante, Zac foi por muito tempo sua vítima preferencial. Nem se contam as vezes em que Zac bebeu pinga do cano do revólver do fanfarrão, que é um tipo de humilhação capital.

Certa madrugada, Carlão chegou no boteco em que Zac bebia. Carlão insultou os presentes, socou a mesa, derrubou copos, falou que ali não tinha homem para encará-lo. Ninguém topou a parada. Como de costume, mais uma vez partiu pra cima do Zac, para esmurrá-lo, ou qualquer coisa do gênero. Zac correu, tentou passar por entre os fios uma cerca de arame farpado. Seu revólver, que era mais para compor a figura, do que mesmo para uso efetivo, ficou preso, impedindo sua fuga. Na luta para se soltar e desviar dos socos do agressor, alguma coisa esbarrou no gatilho do revólver e um tiro disparou no peito de Carlão. Um tiro só. E o arruaceiro tombou sem vida. 

Zac virou herói. Foi a júri popular. Seu advogado alegou legítima defesa. O povo hasteou faixa em seu favor. Foi a única vez em que se viu o promotor pedir a absolvição do réu. Tempos depois, Zac foi ao cemitério e, valendo-se da amizade com o coveiro, pegou o crânio de Carlão e limpou com soda cáustica. Agora o carrega como amuleto e só toma pinga naquele copo sinistro.  O mais interessante é que Zac virou o ponto turístico mais procurado de Mundocaia. Recebe salário e pinga para ficar no bar mais chique da praça. Toda noite o bar fica cheio de turistas para ver o bebinho, com seu vaso-cabeça, que é apresentado como o herói bizarro da cidade.       

( Publicado no jornal  O Popular - Goiânia - Goiás em junho de 2013)

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