Recepção à pequena Eloísa

Seja bem-vinda, pequena Eloísa, minha netinha tão frágil e graciosa, a este mundo imenso, feito o último broto, quase invisível de uma árvore secular. Não repare nos desarranjos da casa, nem na nossa falta de jeito. Digamos que o mundo seja assim mesmo. Qualquer tempo que você viesse, iria encontrar a nós, que viemos antes, preocupados demais com o ato de viver. Mas viver não é viver apenas? Você diria. Deveria ser, mas não é. 

A vida, eu lhe digo, pequena Eloísa, é algo que inventamos e tudo o que inventamos tem lá suas complicações. Você vai ver que andamos mexendo além da conta no cenário onde você irá encenar a vida. Andamos subtraindo o patrimônio natural das gerações futuras, da sua geração, portanto, para remediar a nossa. Mas tudo isso a gente justifica e remenda. É que precisávamos gerar riquezas excedentes para dar conta de nossas demandas. Nosso conselho de sábios anciões concluiu que nossa sina era gerar grãos alimentícios para o mundo. 

Daí viemos com nossas máquinas iradas e desviamos o curso d’água, aplainamos os montes,  pusemos as matas abaixo, botamos os bichos pra correr. Correr em círculo, claro, porque o horizonte se fechou para eles. Botamos fogo nas ramadas do mundo para, no cruzamento da fumaça que sobe e da cinza que desce, a gente gerar os recursos necessários ao nosso estilo de vida, em que todos somos obrigados a ser felizes. Felicidade, para o tempo em que você está chegado, não é outra coisa senão consumir.  E o efeito colateral desse tipo de felicidade é muitas vezes a imprevidência deliberada.

Por isso acionamos as turbinas de nosso sistema produtivo na potência máxima, enviamos sujeira pro céu até não poder mais, a ponto de nosso ar andar pesado e escuro, a temperatura subir bastante e o sol queimar a gente feito um lança-chamas impiedoso. As chuvas escassearam e os rios diminuíram consideravelmente.  Mas não se preocupe, tendo lucro no balanço a gente se ajeita. Já estamos descobrindo cultivares resistentes ao calor excessivo, criamos bloqueadores solares para proteger a nossa pele e o uso de aparelhos de ar condicionado já chegou até as classes C e D, com geração de lucros fabulosos. A diminuição das chuvas foi compensada por sistemas de irrigação e a redução dos rios... bem, esse ainda é um probleminha, coisa à toa, que você muito bem poderá nos ajudar a resolver. Não se assuste. Viver é isso mesmo. É saber acomodar-se sob as abas de uma naja. 

Você, pequena Eloísa, terá em compensação um grau de liberdade tão grande, que nenhuma geração experimentou antes de você. Mas veja lá, minha pequena, veja lá o que vai fazer com essa coisa inebriante. A liberdade que nos permite pular de ponta-cabeça no rio é a mesma que nos estilhaça a coluna vertebral. 

Independente de tudo, de nossos eventuais excessos, negligências e desatinos, de uma coisa você pode estar certa, pequena Eloísa.  Você vai ver estampado no rosto de seus pais, avós, tios e primos o sorriso mais receptivo do mundo. Faça dele o seu ninho, sua nova placenta, uma inspiração inquebrantável para estar no mundo. Seja bem-vinda! 


(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em junho de 2013).

   

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