Rico que é rico não deita em rede na varanda

Numa dessas tardes de domingo, caminhando com minha mãe, já velhinha, por um parque da cidade, ela segurou-se no tronco de uma árvore e ficou assuntando os prédios ao redor. Todos belos, de altíssimo padrão, com preços na casa dos milhões. Valores que ela nem teria capacidade de compreender, pela vida singela que levou no campo e em cidade campeira. Depois de alguns minutos observando, talvez se debatendo contra a vista curta, arriscou um comentário:

— Engraçado, apartamento de rico tem muita rede nas varandas.
— Rede é um negócio bacana, né mãe?  — Eu disse para não ficar calado.
— É... Mas não tem nenhum rico deitado na rede. — Comentou com pesar.

Fiz algum comentário distraído, alegando que talvez aquelas pessoas tenham o hábito de deitar em suas redes em outro horário e tal. E ela comentou quase que pra si mesma:  Hum! Rico que é rico não tem é tempo de deitar na rede.

Nos distraímos com outras coisas: um ipê florido, um cãozinho vestido feito um menino, um casal homoafetivo de mãos dadas, que minha mãe ficou surpresa.  E o assunto das redes não voltou à baila.
Ao me sentar para escrever esta crônica, me lembrei daquela observação de minha mãe: Rico não tem tempo para se deitar na rede. O rico está muito ocupado em manter ou ampliar sua fortuna. Uma rede na varanda seria apenas uma metáfora. 

Um símbolo de liberdade do tipo: se eu quiser um iate, um helicóptero, uma mansão na enseada do Paraíso, ou uma rede na varanda... tudo eu posso. Convenhamos: Basta um empreendedor para mudar a paisagem de uma cidade. Alguns mudam um país. Vários mudam o mundo e tem uns até mudando o universo próximo, com suas lambretas espaciais. A sociedade como tal a conhecemos é mais fruto de empreendedores do que de qualquer outra coisa. Mas o empreendedor não é aquele tipo bonzinho dos discursos natalinos que diz que abriu uma nova frente para que possa dar dignidade para mais tantas mil pessoas, levando melhor qualidade de vida e que tais. 

O pensador Adam Smith, o mais importante teórico do capitalismo, diz que o empreendedor “movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade." O dom de empreender é um temperamento que até poderia ser incluido na lista dos distúrbios psiquiátricos, assim como o narcisismo ou o transtorno obsessivo compulsivo. 

O empreendedor pensa tanto na fortuna que é capaz de se esquecer de si mesmo e de outras pessoas como tais. Não pensa duas vezes em tomar uma decisão que prejudique milhões de pessoas, se for para melhorar o resultado no balanço da empresa. Muitas vezes, é alguém  portador de uma  ganância sem fim, de uma ética alternativa, pautada apenas pelo resultado, e sem noção de suficiência. 

Que às vezes, mesmo sendo bilionário, se sente o cara mais miserável do mundo, ao comparar a própria fortuna com a de outro mais afortunado.  Se fosse um lenhador, tiraria lenha que daria para queimar o mundo, mas não teria tempo de reunir os amigos para um churrasquinho num final de semana.  Talvez minha mãe, em sua simplicidade, é que tenha razão: rico que é rico não tem tempo de deitar em rede na varanda. 

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás - em agosto de 2013).

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