Os contratempos da nova profissão

Não há em Mundocaia quem não conheça Kim Baque. Por problemas que seriam de nascença, Kim (Joaquim de batistério) tem uma perna bem menor que a outra. A perna menor parece normal e a outra é que cresceu além da conta.  Do lado em que a perna é longa, o braço é curto. Do lado da perna curta, o braço é longo. Quase arrastando no chão.  Cada passo é uma bacada. Seu caminhar é luta contínua contra a queda iminente.

Atrás dele, como parte do conjunto, vai uma carrocinha, com rodas empenadas e um tanto ovais, com os ovalados em desencontro, fazendo a carroça adernar para um lado para o outro, criando uma harmonia tosca com o baque de seus passos. Puxando essa carroça ele deixa, pela manhã, o muquifo de lona e capim, no arrabalde. Leva sabão de bola pra vender e ao mesmo tempo coleta pelas ruas material reciclável: papelão, latinha e fios de cobre.  Além de sebo e muxiba que ele pede nos açougues, que é para a mãe, já muito velha, fazer o tal sabão de bola.  Só retorna à noite.

Kim Baque é fumante. Não tira o charuto de fumo de rolo da boca por nada.  Consegue a façanha de, mesmo com entraves na fala, fumar e fazer o pregão ao mesmo tempo. Na verdade ele tartamela alguma coisa como “ó o fabão de fola”. Baba um pouco. Mas todo mundo sabe do que se trata e o negócio realiza. 

Para saber por onde anda Kim, num determinado momento, é só prestar atenção no rumor dos cães. É que o cheiro do sebo na carroça atiça a cachorrada, enquanto seu passo trôpego de quem vai pegar uma pedra, os apavora. Na sensação paradoxal de atração e medo, a matilha o segue pela rua, latindo, guardando a distância que a prudência canina recomenda.

Agora por último o negócio de sabão de bola tem andado ruim pra caramba. A mãe, já muito velha e sem a destreza de antes, tem deixado o sabão zangar com frequência.  A clientela, mesmo os mais pobres, prefere os produtos industrializados: detergente líquido para a cozinha e sabão em pó para a roupa que, além do cheiro agradável de limpeza, ainda prometem prêmios para os fregueses mais sortudos.  

Kim Baque, que não é de pensar muito, intuiu que era a hora de reciclar-se profissionalmente. Ao contrário do que qualquer profissional de RH previsse, não teve dificuldades em se recolocar.  Aziz Alfareje, da rede de açougues Deus é Filé, contratou-o para afugentar os cães da loja do Mercado Central. Ali eles são muitos e inoportunos: roubam nacos de carne e afastam clientes. O trabalho de Kim era ficar na calçada, tropeçando de um lado pro outro, com gestos de afugentar cachorros.  E de quando em quando retirar uma bombinha do bolso, chegar o estopim no fogo do charuto que estava sempre à boca e atirá-la na canzoada mais renitente. Ia tudo muito bem. No entanto, ontem Kim tropeçou na operação: acendeu o estopim da bomba no charuto, jogou o charuto nos cachorros e fumou a bomba. Suas dentaduras postiças, que ganhara para o novo trabalho, se estilhaçaram pelo ar. 

(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em agosto de 2013).

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