A exuberância do ipê-rosa (ao Dia da Árvore)

Sou um privilegiado. Da minha janela posso ver. E vejo com admiração. O Ipê-rosa da Rua T-37, Setor Bueno, quando floresce, humilha as outras árvores. Em outros períodos do ano ele se passa por um habitante comum e mal acomodado na calçada estreita. O tronco serve de marco para o xixi dos cãezinhos de apartamento e na copa refugiam periquitos em algazarra e pombos aos arrufos. 

Parte de seus galhos já foi arrancada pelo baú de um caminhão de mudanças. Até o tronco foi esfolado nesse entrevero. Zeloso que é, cuidou de recompor a casca e alongar os galhos no sentido oposto à rua. Apesar de tudo sua florada é um portento. É como se de repente aquela árvore de aparência humilde, de tronco ainda raquítico, que nem lembra o porte vultoso de alguns ipês mais velhos, surtasse, entrasse em estado de fúria e exibisse uma carga floral muito acima do que é razoável esperar-se de um vegetal franzino como aquele. 

Eu digo que quando floresce ele humilha as outras árvores. E é fato. As outras cuidam de florescer antes ou depois dele. E aquelas que coincidem de estar florindo simultaneamente, quando percebem, cuidam de recolher seus cachos para depois que passar sua exuberância floral. Isso eu vi acontecer com a cássia-fístula, ou chuva-de-ouro, que vive logo abaixo, no mesmo quarteirão. Ela estava florida, de cima abaixo, com suas cascatas douradas. Quando viu o ipê-rosa vizinho ensaiar sua performance, ela se recolheu mudamente, guardando os talos com botões para abrir depois, quando o vizinho mais exibido se calasse.

Em maior ou menor grau a mesma coisa aconteceu com os cega-machados, ou nós-de-porco. A florada rubra já vinha irrompendo. De repente paralisou tudo.  Com a desculpa de esperar a primeira chuva. O mesmo aconteceu com as lofanteras, as espatódias com suas flores lúbricas, conhecidas popularmente como xixis-de-macaco. Vi inibir as floradas as azaleias, as sibipirunas, as quaresmeiras, os resedás e até as exórias, os beijos, e as onze-horas das floreiras suspensas nos recantos dos apartamentos. Vi recolher suas bandeiras para exibir depois os jacarandás-mimosos, as sempre-vivas, os flamboyants, os oleandros, os mulungus, os ipês-tabaco, as mussaendas, as sete-copas, as patas-de-vaca, os manacás-da-serra, os paus-formiga e os calistemos. Até mesmo as paineiras-barrigudas, que parece ter um comportamento errático, anteciparam ou adiaram suas floradas em respeito àquele ipê.

Só as jambochas, que são árvores introvertidas e florescem para dentro da copa, não deram moral nenhuma ao discurso inflamado do ipê da T-37, forrando as próprias sombras com pétalas vermelhas, como se nada estivesse acontecendo.  
  

(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em setembro de 2013).

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