Diálogo superlativo

Eduardo reuniu uma grana legal com a venda de umas terras que recebeu de herança. O imóvel ficou valendo quase nada por muito tempo. Era fraco para qualquer cultivo. Mas a cidade foi crescendo e até encostar nele. Com a ampliação da zona urbana, teve valorização espetacular. Edu deu um upgrade na situação financeira, fez novos grupos de amizade, mudou de hábitos, comprou um carrão. Um carrão importado. Um não: dois. Um para o dia e outro para as baladas. Pegou a achar uísque de 12 anos muito novo e mulher de 20, muito velha.

O apartamento de classe média se tornou impróprio para abrigar a ele e seu ego estufado de vento. Comprou um lote bacana num condomínio de luxo. Encomendou um projeto maneiro a um arquiteto da moda, desses que copiam as casas de Miami. O mesmo arquiteto lhe recomendou um mestre de obras tarimbado.

Edu recebeu o pedreiro em seu apartamento. Sujeito miúdo, branquinho, enrugado, ligeiro e serelepe; o Zequinha: 

– Muito tempo que o Sr. é construtor?

– Mais de quarenta anos. 

– Quantas casas o Sr. já fez?

–  Ah, perdi a conta?

– Já fez casa pra gente famosa?

– O Sr. é famoso? Desculpe. Não vejo televisão.

– Ainda não. Mas... Quem faz serviço pra celebridade costuma ser mais caprichoso.

– Então você não sabe? Minha especialidade é famoso.  A primeira casa de famoso que fiz foi a do Mansell.

– Mansell... Mansell...

– O Nigel Mansell, da Fórmula-1. Eu tinha reformado a casa do Piquet que me indicou pra ele. Esse fusquinha que ando foi o Piquet que me deu.

–  A-hã! O Mansell é inglês... Então o  Sr. já construiu na Inglaterra!? 

– Mas não pro Mansell. Pro Mansell foi aqui no setor. Na Inglaterra foi pro Elton John, pro príncipe Charles. Construí também prum roqueiro dos Beatles. Esqueci o nome.

– Não me diga! O Mansell tem casa aqui no setor?

– Tinha. Vendeu pro João Paulo, que me pediu uma reforma com capela nos fundos.

– O João Paulo que morreu? Aquele que fazia dupla com o Daniel?

– Já morreu, sim. Mas não é aquele, não. É o que era papa. O João Paulo II. 

–  Af... Pra celebridade brasileira o Sr. já construiu alguma?

– Quantas, Meu Deus!  Fittipaldi, Xororó,  Roberto Carlos,  Paulo Coelho. Pro Dinho dos Mamonas...  A do Neymar estou respaldando. Posso te levar lá pra ver.

– Pro presidente Lula o Sr. já construiu? 

– A pedido dele. Pra uma moça chamada Rose.

– Nó... Vamos ao que interessa. Quanto vai me custar a mão de obra?

– Um milhão é meio, mais o aluguel da betoneira e as quentinhas dos serventes.

– Mas é caro demais, seu Zequinha.

– Então... Celebridade paga o preço. O que posso tirar é o aluguel da betoneira. 
  
(Publicado no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013)

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