Prenúncios da tempestade


Era um setembro qualquer: manhã radiante, prometendo sol e calor o dia todo. Mas não tardou para que alguns sinais aziagos começassem a se manifestar. Logo cedo, ao calçar as botinas, meu pai reclamou que o pé esquerdo, que sofrera um trauma na infância, tinha voltado a doer.  E pressentiu que algum acontecimento estranho estava por vir. Minha mãe benzeu-se com o sinal-da-cruz. 


Assim que meu pai pegou a cabaça, o prato de almoço, a enxada e foi pra roça, uma galinha carijó, do pescoço pelado, saltou enfurecida sobre o palanque dos galos, no terreiro dos fundos, bateu as asas no peito e cantou um canto esganiçado de um galo de improviso. Minha mãe persignou-se. Agora com as três cruzes. Mas não me disse nada. Talvez para não me assombrar. Nem precisava. Eu já percebera que alguma coisa malina se aproximava de nós.

Minha certeza foi aumentando assim que outros sinais premonitórios foram mostrando a cara. Um tatu-bola, que a gente criava como pet e que já esquecera os ofícios escavatórios, cavou afobado um buraco no chão mal batido, num canto da cozinha, e lá se refugiou. Vi nos arredores que os cupins estavam tapando os suspiros dos cupinzeiros, em regime de urgência. As aranhas deixaram as teias baldias e se alojaram dentro das palhas do beiral do rancho. As pererecas começaram a raspar em pleno sol. Fileiras de formigas-correição se formaram de repente nos arredores, que se podia ouvir o rumor das procissões. Os anus-brancos entoaram, por entre os galhos da paineira, sua sinfonia ressentida, com maior ressentimento agora.  E os urubus não planaram em revoo, como é de costume, nas lonjuras do céu: faziam voos rasos e ofegantes, saltando de pau em pau, como sofrendo pavor de altura. 

Afora essas sutilezas, tudo seguia normal. No entanto, lá pelas duas da tarde, um nevoeiro assombroso tomou de assalto o horizonte oeste, feito um cortinado de fumaça de pneus. (A figura linguagem é posterior. Na época eu não conhecia pneus, muito menos sua fumaça).  Do alto das nuvens negras desciam luminescências, feito pernas de mistério.  Ao ver aquilo minha mãe persignou-se outra vez.  E aquele embrulho negro veio vindo, nos envolvendo, feito ameaça bíblica.

O dia virou noite no meio da tarde. Os sons da natureza cessaram em reverência ao instante. Um silêncio tão compacto nos envolveu que se podia escutar o zumbido dos próprios ouvidos e o tum-tum do coração fatigado.  Nas alturas, a galinha-galo conjurou, como nunca fizera antes. Na sequência do conjuro, um raio simultâneo ao relâmpago partiu a tarde em duas compotas. A paineira frondosa, aquela em que os anus-brancos cantavam, partiu ao meio, com o impacto do raio. Eu e minha mãe caímos de susto.  Mas logo levantamos, trêmulos, à procura de abrigo. 

Uma ventania feroz chegou trazendo a chuva horizontal e cortante. Nosso rancho de pau-a-pique estremeceu todo. Escondemos debaixo de um couro de vaca, no quarto. Pela fresta da sangria, vi que o rancho levantava a cobertura e tornava a voltar, freneticamente. Foi então que, orgulhoso, constatei que os amarrilhos de cipó que meu pai fazia nem a tempestade mais violenta era capaz de desfazer.  

Meu pai chegou mais tarde, sem o chapéu. E o pé já não doía. Dia seguinte soubemos que a Mata Grande fora destroçada e a casa do senhorio viera abaixo.  

( Publicada em O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013)     

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