A atividade de escritor ante a urgência da vida

Décadas depois de passar escrevendo romances, como atividade paralela à profissão de professor de Literatura, Ramiro Ortega ganhou uns prêmios literários e agora gozava de algum prestígio. Aproveitando o momento, aposentou-se na faculdade e passou a viver de seu trabalho literário. Não dos livros. Os prêmios pouco incrementaram as vendas. Passou a viver de um misto das duas atividades: proferir palestras (aulas mais animadas) nas feiras e encontros literários. 

Ano passado palestrou bastante. Ganhou uma grana boa. No meio ano decidiu que não faria palestras em dezembro. Passaria um tempo no sítio, junto com a mãe, a esposa, os filhos e os netos e, quem sabe, escreveria a sinopse do próximo romance para ser desenvolvido no ano seguinte, nos intervalos das palestras que viriam. Dispensou todos os convites para dezembro. Nem quis fazer conta do que deixou de ganhar. Mas o pessoal de Baobá, uma cidade litorânea que ele jamais soubera da existência, não aceitou a negativa passivamente. Depois do organizador do evento, ligou o secretário de cultura. Inconformado com o não, ligou o prefeito pronto a não aceitar nenhum argumento de Ortega para não ir. Muito a contragosto o palestrante impôs condições. A todas o prefeito aceitou. Até as mais descabidas: passagens pra família inteira, hospedagem por uma semana num hotel na praia e o cachê em dobro. A organização deu o tema: “A atividade de escritor ante a urgência da vida.” 

O tema era bem diferente dos que costumava falar, sempre voltados para técnicas de escrita criativa, construção de enredos ou personagens, a repercussão da literatura ante as novas mídias etc. Ortega ainda tentou afinar o tema, se seria sobre como deve agir um autor diante de tantas demandas da vida moderna para não perder o foco, ou se seria sobre a longevidade da arte em face à brevidade da vida, ou ainda como conciliar as possibilidades infinitas da literatura com a vida finita. Ortega deveria fazer como quisesse. Na dúvida falou sobre os três aspectos. 

Nunca fora aplaudido tão efusivamente. Quase 10 minutos de ovação. Todo mundo de pé. Com a emoção, Ortega sentiu que levitava. A vista escureceu e na vertigem caiu inconsciente. Levado ao médico, veio a má notícia: restariam apenas três dias de vida. A esposa questionou a credibilidade do médico, mas foi informada de que vinha gente do mundo inteiro pra consultá-lo. Já esteve ali Madona, Sílvio Santos e Michael Jackson e seus diagnósticos são certeiros, lhe informaram. 

Ortega resolveu viver o tempo que lhe restava de forma intensa, sem fugir à responsabilidade. Curtiu a praia com a família, rolou na areia com os netos, bebeu cerveja com os mais velhos. Mas comprou um jazigo e encomendou o funeral. E até um mestre de cerimônia. Falou pra esposa de um seguro de vida e de uma poupança secreta. Quatro dias após o diagnóstico, Ortega sentia-se saudável como um coco. Pensou em desfazer os negócios funerários, mas antes voltaria ao consultório. O médico auscultou, depois o enfiou num tomógrafo. E nada de encontrar a doença fatal. Imobilizado sobre a maca, ouviu quando o médico disse à esposa: já tratei de muita gente boa. E não vai ser um escritorzinho de merda que vai me desmoralizar.         

   
( Publicada em O Popular - Goiânia - Goiás em dezembro de 2013)

 

     

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