Nada é como imaginávamos que fosse

A vida requer da gente coragem cotidiana. É um desafio a cada dia. Temos que conquistar medalhas por atos de bravura cedo e à tarde. Quem não tem enfrentado desafios, talvez não esteja vivendo direito. Mas apenas vegetando, que é também um modo de vida, não nego. Mas um modo de vida numa escala constitutiva aquém da humana.  Um estado de vida dos decaídos. O estado de alma zen só é conquistado por quem teve o privilégio de lutar e vencer infinitas batalhas. 

No alvorecer da vida, todos nós sonhamos como seria nossa vida de adultos. Se nós mesmos não sonhamos, alguém sonhou por nós e nos encaminhou os primeiros passos até que engrenássemos nos sonhos próprios. Mesmo quem não tinha clareza nas visões dos dias futuros, por certo arriscava algum vislumbre e nos vislumbres sempre havia a irradiação de luzes, ainda que indiretas.

Foi a previsão de uma vida luminosa que nos fez levantar bem cedo quando a preguiça nos dizia que permanecer na cama até a hora do almoço era o melhor a fazer. Foi esse encontro marcado com o futuro que nos fez ombrear aquele velho enxoval de estudante, percorrer a pé as longínquas trilhas de casa até a escola e devorar antigos alfarrábios com fome de conhecimentos. Foi a esperança, mesmo que difusa, foi a fé, ainda que sem foco, que moveram nossos passos do passado até os dias de hoje e continuam nos impulsionando a um futuro incerto. 

Por mais contraditório que pareça, é desse sonho que provém a nossa força que não deve morrer nunca. É do desencontro do sonho com a realidade é que vem o impulso para a luta que desferimos a vida inteira. Pois nada ou quase nada do que nos acontece é igual o que sonhamos um dia. E não podemos entregar os pontos.

Alguém passa os cursos preparatórios sonhando entrar pra medicina. Muitas vezes acaba fazendo outro curso que nunca tinha pensado. Ou consegue mesmo fazer medicina para concretizar os sonhos de ajudar os doentes e necessitados e acaba engolido, ou quase, pela voracidade bruta do sistema desumano de saúde. Alguém entra pra faculdade de direito, sonhando um dia defender os inocentes e oprimidos, mas tarde descobre que os inocentes e oprimidos, ou não precisam de advogados ou, se precisam, não têm como pagar, e acaba passando o resto dos dias defendendo os mais ferozes dos facínoras.

Alguém promete no altar, perante pastor e testemunhas, fazer alguém feliz até que a morte os afaste. Para descobrir, com ou sem espanto, que não é possível fazer alguém feliz se esse alguém já não traz dentro de si o germe da felicidade. E a felicidade buscada no acasalamento só vai acontecer, ainda assim parcialmente, no quinto ou sétimo relacionamento sério. Ou nunca. E assim mesmo a vontade de lutar por dias melhores não fraqueja. 

Até porque a felicidade mesma acontece no fervor da luta, no desferir das armas. Ou nos momentos distraídos, de baixa percepção. Se pararmos para conscientemente sorver a felicidade como uma taça de sorvete, ela se dissipa e nos deixa infeliz.  A felicidade não vem do encontro com ela, mas de sua busca incessante. A felicidade só é percebida por artifícios da memória, quando se pode vê-la pelo retrovisor e sentir que no passado ela o pegou no colo e lhe fez cafuné. O resto é luta. 

( Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em janeiro de 2014)

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