Apontamentos para um romance policial

Grael era diferente dos quatro irmãos, que ele chamava de “medíocres”. Pessoas que pensam em estudar para ter uma profissão, creem que o trabalho precede o descanso, que o ganho precede o gasto, que a carreira vem antes da aposentadoria. Grael costumava dizer que estudar é pra quem não tem talento. Citava sempre o Lula, que é sem estudos mas põe qualquer doutor no bolso.

Apesar do discurso, Grael viu os irmãos se darem bem, multiplicando a herança que receberam dos pais, que não eram ricos como esse pessoal do Vale do Silício, mas para os padrões terceiro-mundistas eram bem remediados. Ao contrário do presidente Lula, Grael nunca achou a sua política. Jamais engrenou em algum trabalho que valesse à pena. Sempre metido em algum negócio miraculoso, que quase sempre não dá em nada. De vez em quando entra em frias. Os irmãos o socorrem, por dever fraterno. Grael constituiu uma família ressentida. Os filhos dele, ao verem os primos ricos, acham que os tios passaram a perna no pai. Mesmo assim, seus filhos estão se preparando para uma vida melhor. Menos a Malvina, que puxou ao pai e vive pensando em dar um golpe e subir na vida como quem salta de vara.

Grael e a filha Malvina bolaram um plano: fizeram um seguro de vida milionário em nome do pai, tendo a filha como beneficiária. Combinaram em simular a morte do pai para a filha botar a mão na grana. Dividiriam o dinheiro entre ambos. O pai passaria a viver na clandestinidade, mas rico e com a proteção da filha.

Malvina cresceu o olho na grana e quis ficar sozinha com a bolada. Em vez de simular a morte do pai, mandou um pistoleiro, disfarçado de assaltante, matá-lo de verdade. Ao tramitar o processo de resgate do seguro, Malvina se apaixona pelo gerente do banco. Como não há segredos entre enamorados, Malvina lhe contou dos planos rocambolescos de enriquecimento. O namorado-gerente, numa paixão financeira extrema, lhe pediu a mão e se casaram em regime de urgência.

No trâmite burocrático para liberar o dinheiro, a superintendente regional da  seguradora, que desde há muito é apaixonada pelo gerente, lhe falou que sabia da tramoia e que poderia denunciar à polícia. A condição para não haver denúncias era o gerente livrar-se da esposa Malvina e, numa outra paixão apressada, casar-se com a superintendente. Ainda na lua-de-mel, Malvina, que tem espírito aventureiro, caiu de uma altura de mais de 50 metros, sobre uma pedreira contundente, onde praticava rapel, sem deixar suspeitas de ardil.

O gerente, agora viúvo e herdeiro dos defuntos, casa-se com a superintendente numa cerimônia restrita. O dinheiro saiu, como era o desejo de todos. O gerente, agora casado com a superior, está rico. E acha que nada pode lhe atingir.

Mas como ninguém está livre da desdita, ao fazer um check-up de rotina, a enfermeira, por orientação da esposa, lhe aplica uma injeção de ar na veia e ele morre de ataque cardíaco, sem deixar vestígios de assassinato. A superintendente, agora viúva e com a grana de Grael, aceitou um velho pedido de casamento do diretor. Que é velhote e tem uma apólice de seguro, maior ainda.

Bentinho, que é detetive particular e caçador de recompensas, está eufórico com essas mortes em série.

(Publicada no jornal O  Popular - Goiânia - Goiás em fevereiro de 2014).

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