Zequinha de Ana Mofo e Seu Opala

Zequinha de Ana Mofo é o tipo do sujeito encardido. De corpo e alma. Em Mundocaia ele já é conhecido até pelos pés de pau e todo mundo o evita. Mas é andejo e por onde passa acaba fazendo estragos. Onde quer que vá ninguém consegue contato com ele impunemente. De qualquer forma ele causa algum transtorno, dá um prejuízo em quem esteja em seu caminho ou proximidade. O mínimo que se pode esperar dele é uma ligação em hora inconveniente, pedindo desculpas pelo incômodo, mas por uma questão de vida ou morte, só você na face da terra pode socorrê-lo naquele momento, e lhe pedir um empréstimo de 50 ou 100 reais. Dinheiro caiu na mão dele você pode dar adeus às ilusões. Com ele é como dizia Millor Fernandes: “Quem dá aos pobres, ou empresta; adeus!”

Outro dia, ao sair do shopping, avistei Zequinha, com seu velho Opala SS 78, cor de abóbora, tala larga e faixas pretas, mexido, rebaixado, envenenado, o cróis! Cabelos rastafári, feito longos casulos de corós e outros bichos. Óculos ray-ban ordinários, camiseta regata sem cor indefinida, calças jeans desbotadas e chinelos de pagodeiro. Estava à minha frente na fila de saída. Já sou escaldado. Encolhi no carro e fechei os vidros, para que o nocivo não me visse e me causasse algum dano.

Não hora em que Zequinha foi passar o cartão a cancela emperrou. E como diria Murphy, emperrou de um jeito que causasse o maior incômodo. A cancela levantou, mas antes que abrisse por completo, desceu sobre o teto do Opala e criou o impasse. Nem pra frente nem pra trás. Zequinha apertou o botão da assistência, mas gritou tão feio que o assistente fingiu de morto e não deu as caras. Zequinha desceu do carro, furioso, lançando impropérios para tudo quanto era lado. 

A fila foi aumentando e também o volume dos protestos, como se Zequinha fosse o culpado de tudo mundo estar ali esperando. Até porque ninguém teria paciência com um Opala SS 78 empatando a saída do shopping. Só o fato de um carro daqueles entrar no shopping já era muita petulância. Todo mundo aos berros começou a buzinar. Fiquei na minha pensando: vocês não conhecem Zequinha de Ana Mofo. Vocês não sabem com quem estão mexendo.

Zequinha está espumando, a ponto de se transformar no Hulk. Entra no carro, bate a porta e dá na ignição. Pisa no acelerador. O carro preso na cancela pelo teto. E o motor aumenta a rotação, urrando, zunindo num volume de esbagaçar. As pessoas tapam os ouvidos. Todo mundo da fila foi apertando pra trás, de medo daquela bomba explodir. Com um pequeno solavanco a tábua da cancela voa longe, resvalando sobre os carros. O Opala dá uma ré irada, engavetando os carros de trás. 

Abriu um espaço que cabiam uns cinco carros. O Opala urrava cada vez mais. Quando o giro do motor parecia ter atingido o ápice, umas tarjas laterais caíram, liberando algumas coisas que lembravam asas. E diante de todo mundo embasbacado, o Opala velho dá um pinote e levanta num vôo esquisito, meio lateral. Amassa com as rodas uns 15 ou 20 carros. Já bem alto, Zequinha de Ana Mofo retira o braço pela janela e nos homenageia a todos com uma banana!
       
(Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás - em fevereiro de 2014).

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