Minha premonição de consumo

Numa crônica anterior relatei que outro dia me aconteceu um lance que até agora não entendi direito. Se foi coincidência ou se o marketing já conseguiu invadir a intimidade de nossos sonhos, enquanto dormimos. De madrugada sonhei que estava voando, com asas cômodas e bem ajustadas. Um voo gratificante e plácido, sobre paisagem deslumbrante, numa tarde fagueira de minha infância. O voo ainda em andamento, acordei com o sinal sonoro do celular sinalizando a chegada de uma mensagem de texto. Pesaroso pela interrupção do sonho tão bom, leio a mensagem: “Dica do dia: realize seu sonho de voar. Pratique um esporte de pura emoção. Venha voar com a gente.” Na sequência, os dados da empresa que prometia a concretização do sonho. Coincidência ou armação?  As coisas como andam, dá mesmo pra desconfiar.

Minhas suspeitas de que o marketing invade a vida mais íntima das pessoas se firmaram ainda mais. Ocorre que ontem tive outro sonho. Mas ao contrário daquele outro, era bem pavoroso. Sonhei que estava no sítio, curtindo numa boa o final de semana. De repente chega de não sei onde um camarada de fita métrica, caderneta e lápis na mão. Dava pinta de ser alfaiate.

Sem maiores rodeios, esticou a fita em minha direção, enquanto dizia que era representante de certa empresa de serviços funerários e que ele fazia parte de um departamento proativo. Estaria ali para tirar minhas medidas e deixar no computador da empresa. No dia que eu fosse embarcar na canoa definitiva, tudo já estava mais fácil. Era só o responsável, um herdeiro meu, passar as informações de uma ficha que ele deixaria comigo e em minutos meu caixão sob medida estaria pronto, feito por robôs. Isso baixaria custos para a empresa, que seriam repassados para os clientes, pois não precisariam mais ter ataúdes em estoques. E o camarada era sabido. Até falou que essa ferramenta de trabalhar sem estoques era o que há de mais avançado em estratégia de Marketing  e se chamaria Just in time.

Passei-lhe uma descompostura e mandei que fosse bater noutra freguesia de defuntos. Mas o tipo era um profissional moderno, daqueles que não aceitam “não” como resposta. Saiu, foi até o carro e voltou com a mesma cara lépida, com um aparelhinho na mão. Parecia um teodolito eletrônico. O negócio emitia raios e ele o apontou pro meu lado. Puxou um gatilho e emitiu um flash. Pronto, ele disse, as medidas que eu preciso já estão todas aqui. E foi saindo como quem tivesse uma lista enorme de clientes para visitar. 

Como no sonho que relatei anteriormente, acordei no meio da madrugada, com o barulho do celular avisando que tinha mensagem nova. Intrigado, fui ao celular e li: seus momentos de pesar e dor merecem toda a dignidade. Contrate hoje mesmo nossos serviços póstumos. Ao perder um ente querido, sofra apenas a dor da perda e o luto natural. A dor da burocracia deixe conosco. Fale a empresa tal.

Agora estou mais intrigado ainda com o poder do marketing. Porque se não for isso, será coisa pior. Eu estaria desenvolvendo uma habilidade mediúnica, por revelação em sonho, de saber previamente as mensagens comerciais que vou receber. Seria o consumo levado às raias da transcendência. É tudo o que não desejo na vida.    

(Crônica publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em fevereiro de 2014).

Reações:

2 comentários:

  1. Delícia de texto, Edival ! Mesmo a canoa definitiva pareceu bom programa. Parabéns! Márcia Maranhão De Conti

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  2. Olá, Edival Lourenço, tudo bom? Recentemente li uma antiga publicação sua no revistabula.com. Era sobre seu amigo Pio Vargas. Fiquei interessadíssimo em conhecer mais a poesia de Pio. Contudo, não consigo encontrar disponíveis as primeiras edições dos livros dele ou do Poesia Completa da R&FEditora. Também não encontrei na rede digital nada suficiente, apenas alguns versos aleatórios. Você sabe se ainda há outra forma de eu conseguir mais coisas do Pio Vargas?
    Atenciosamente,
    Ítalo Medeiros.

    P.S: envio-lhe esta mensagem nesta caixa de comentários porque não encontrei seu endereço de e-mail ou outra maneira de conta.

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